“O bolsonarismo e suas mazelas”. Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas.

Marco Antonio Villa

O bolsonarismo é uma manifestação única na história brasileira. Não tem similar. A associação com Jânio Quadros ou Fernando Collor não se sustenta. O primeiro teve uma destacada carreira administrativa na prefeitura de São Paulo e no governo estadual. Elegeu, inclusive, seu sucessor. Na eleição de 1960 obteve um amplo arco de apoio mesmo em uma conjuntura econômica favorável (o país cresceu 9,4%) venceu o candidato oficial (o marechal Teixeira Lott). Estabeleceu no governo uma política externa independente – em plena Guerra Fria – e nomeou o primeiro embaixador negro, o jornalista Raymundo Souza Dantas. Fernando Collor enfrentou e venceu o PT na primeira eleição presidencial depois de 29 anos. Encontrou um país com uma inflação anual de 1782,9% (em 1989). Os seus dois ministérios foram compostos (com raríssimas exceções) por expoentes nas diversas áreas, basta ver os titulares do Itamaraty. O quadro atual é muito distinto – isto sem entrar, por exemplo, na formação intelectual de Jânio comparada a de Bolsonaro; a oratória e o conhecimento do vernáculo.

É possível entender o bolsonarismo como resposta popular à desmoralização do Estado democrático de Direito realizado pelo PT durante 13 longos anos. Ao que o ministro Celso de Mello, em um voto da Ação Penal 470, chamou de projeto criminoso de poder. A democracia foi considerada responsável pelo saque do Estado. Os fabulosos gastos eleitorais – financiados pela corrupção estatal em escala nunca vista na nossa história, como o petrolão – permitiram transformar o processo eleitoral em uma farsa sob controle petista. A compra de apoio parlamentar levou a um entendimento de que o Congresso não passava de uma Casa pronta para ser subornada. Esta visão acabou sendo consolidada em grande parte da sociedade. Assim, o Parlamento perdeu o papel de ser um conduto para a insatisfação popular. Mais grave, passou a ser visto como um obstáculo à moralização da coisa pública, à governabilidade.

O bolsonarismo ocupou o espaço deixado vazio pela direita e o centro democrático. É aquela velha história: assim como no futebol, na política não há vazio que não será ocupado. A direita liberal perdeu o discurso. Pressionada pela extrema-direita teve enorme dificuldade de construir um discurso no campo democrático que respondesse à desilusão dos eleitores com o sistema político desenvolvido a partir da Constituição de 1988. Já o centro perdeu identidade. As acusações de corrupção que atingiram seus líderes acabaram maculando a construção de uma proposta que resgatasse os valores democráticos, combatesse os desvios de recursos públicos e apresentasse ao país um caminho para o crescimento econômico.

A manifestação de domingo demonstrou que o bolsonarismo tem enorme dificuldade de conviver com a democracia, com as instituições, com o funcionamento do Estado sob a égide da Constituição de 1988. Isso não significa necessariamente que o autoritarismo esteja de tal forma consolidado nos corações e mentes dos apoiadores do Presidente da República que não possa ser enfrentado. Muitos estão iludidos por uma solução de força, por uma suposta limpeza ética. Estão enganados, sim. Mas tem de ser conquistados para o campo democrático. E aí mora um outro problema. Onde estão as alternativas? Quais os líderes? E as ideias? Basta criticar os manifestantes?

Até hoje não é possível afirmar que há um plano de governo. O que existe são ações ministeriais, na maior parte das vezes desconectadas e sem um claro objetivo a ser atingido. A improvisação é uma marca desta gestão. A própria reorganização ministerial é uma demonstração de amadorismo na estruturação das diversas atividades governamentais. Também a escolha dos ministros foi contaminada pela pobreza ideológica de Bolsonaro. Sem uma perspectiva macro, passou toda a campanha dissertando sobre obviedades, platitudes e temas irrelevantes. Quando instado a esclarecer algum ponto controverso, evitava aprofundar a dúvida. Optava pela desqualificação do interlocutor. E assim passou toda a campanha – e foi favorecido, involuntariamente, registre-se – pelo atentado de 6 de setembro, que permitiu justificar a ausência nos debates. Assim, o eleitor deu um cheque em branco no último processo eleitoral.

A pobreza ideológica foi agravada pela falta de quadros. Isto explica a escolha de ministros sem expressão e despreparados para o exercício de funções públicas tão importantes. O pior é que os nomeados, deslumbrados com o poder, agiram (com raras exceções) como se estivessem conquistando território inimigo. Houve uma junção de primarismo político, radicalismo religioso e fanatismo. Um coquetel tenebroso que imobiliza a boa gestão administrativa. O que funciona no governo deve-se a alguns abnegados (geralmente funcionários de carreira) e alguns ministros (a minoria) que tenta dar um rumo racional à irracionalidade advinda do Palácio do Planalto.

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