Marco Antonio Villa

Crise sem fim. Até quando?

Em 1899, um republicano, desiludido com os rumos do regime, disse que a República tinha sido somente anunciada em 1889: a proclamação estava por vir; isso dez anos depois do golpe militar de 15 de novembro. A primeira década tinha sido desanimadora para aqueles que achavam que poderiam transferir as instituições da Terceira República francesa para a terra descoberta por Cabral. Contudo, o velho militante mantinha ainda a esperança de que um dia tudo poderia mudar e, finalmente, o país viveria com instituições consideradas modernas e civilizatórias.

Mais de cem anos depois, mudança continua sendo uma palavra mágica da política brasileira. Porém, quando parece que algo de novo vai ocorrer, as velhas práticas se mantêm e a frustração toma novamente conta do cidadão. É como se o sistema político estivesse blindado e impedisse que nascesse o novo dia: o amanhã é sempre o hoje. E para sempre.
A mudança anunciada sempre se transforma em conservação do que havia de mais arcaico, tanto na elaboração de políticas públicas, como no uso da máquina do Estado, nas alianças no Congresso Nacional com os régulos provinciais – como diria Joaquim Nabuco – e até no discurso dos ministros.

A bem da verdade, deve ser reconhecido que houve uma mudança: nunca na história republicana uma eleição foi tão pobre em ideais como a atual. É a pior, ao menos, desde 1989. 13 presidenciáveis que sequer conseguem elaborar um simples projeto de plataforma política. E – é piada pronta – continuamos perseguidos pelo número 13: 13 anos de PT, 13 milhões de desempregados e 13 alianças eleitorais para a Presidência da República.

A sucessão de denúncias de uso da máquina pública cresce em progressão geométrica. Nem a Lava Jato (e as pesadas condenações) assustaram os meliantes, que se auto-proclamam representantes do povo brasileiro. Eles não se constrangem. São insaciáveis. Chegamos ao cúmulo de um presidiário se lançar candidato à Presidência da República. E mais: transformou a cela em comitê de campanha, os advogados em pombos correios que levam e trazem mensagens exclusivamente partidárias – violando o princípio legal de defesa do seu paciente; tudo isso sob o olhar complacente das autoridades e da OAB (onde está a comissão de ética?). 
 Parece que foi abandonado o princípio republicano de gerir os recursos públicos com isenção, apartidarismo e probidade. O sonho de Saldanha Marinho, Silva Jardim, Lopes Trovão, Quintino Bocaiuva, entre outros republicanos históricos, acabou se transformando em pesadelo permanente.

A “governabilidade” se transformou em justificativa para o saque organizado da coisa pública. E condição indispensável para governar. É a falácia mais repetida nas últimas décadas. Analistas de botequim insistem que sem apoio do que chamam de “centrão” não é possível exercer plenamente o poder executivo. Ganham a concordância entusiasmada dos líderes deste ajuntamento de assaltantes que se utilizam de relações incestuosas com a coisa pública para se enriquecer sem o menor pudor. Pior ainda, contam com a anuência silenciosa das togas, daqueles que deveriam exercer a justiça. 
 Nada indica que este triste quadro deva mudar em outubro. O gatopardismo vai continuar a dominar a cena política. A questão central é que a crise mais grave da história republicana não vai ser solucionada dentro do próprio quadro que foi gerada. Isto parece óbvio mas não é. Ingênuos imaginam que é possível reformar o que está aí com os próprios mecanismos existentes, ou seja, com esta estrutura institucional. Até Giordano Bruno, no século XVI (!!), já tratou desta questão. Basta citar alguns dos senadores que devem ser eleitos ou reeleitos: Roberto Requião, Dilma Rousseff, Beto Richa, Eduardo Suplicy, Renan Calheiros. Não citarei outros em respeito aos nossos leitores.

Não custa recordar que passamos por momentos difíceis ao longo da história republicana. 1930 foi um deles. Mas diversos projetos para solucionar aquela crise foram apresentados. Um acabou vencedor, o da Aliança Liberal com – importante ressaltar – diversas modificações entre o processo eleitoral – quando foram derrotados – e a vitória da revolução, em novembro. Em 1964, em meio a grande tensão política, diversos caminhos foram apresentados para resolver o impasse – e um deles foi o vencedor.

Hoje, não sabemos para onde ir. Estamos literalmente em um beco sem saída. O sistema deu o que tinha de dar. Se esgotou. Sobrevive em sucessivas crises que impedem que o Brasil possa crescer em um ritmo digno da nossa dinâmica sociedade civil.
Se os velho republicanos estavam desiludidos com o novo regime, certamente milhões de brasileiros estão decepcionados com os rumos do país. Estão cansados de a todo dia tomar conhecimento de um novo caso de corrupção. De assistir políticos se locupletando com o dinheiro público sem que a justiça aja como deveria agir. Querem ter orgulho de viver no Brasil. Mas como? O que fazer? Como?