Flertando com o comunismo.

Marco Antonio Villa

A Copa da Rússia permite retomar o tema do comunismo. Ainda são visíveis as marcas do regime – afinal, foram mais de setenta anos de ditadura. No Brasil foi recorrente o uso propagandístico da experiência soviética. Esta literatura foi inaugurada com “URSS, um novo mundo” de Caio Prado Júnior, publicado em 1934. O livro foi o resultado de uma viagem de dois meses pela União Soviética. Prado Júnior, que já era conhecido como historiador, pois no ano anterior tinha publicado “Evolução Política do Brasil”, resolveu escrevê-lo, segundo informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia – ainda que não com todos os detalhes – do massacre de milhões de camponeses no que ficou conhecido como a coletivização forçada do campo (1929-1933). Também era fartamente noticiada a repressão a todas as correntes políticas não-bolcheviques e a consolidação do poder absoluto de Josef Stálin.

Caio Prado Júnior tinha plena consciência destes fatos. Mesmo assim, elogiou entusiasticamente o regime nas 241 páginas do seu livro. Reconheceu que o regime era “severo.” E justificou: “não havia outro processo a empregar senão a violência.” De acordo com ele, a violência “está nas mãos das classes mais democráticas, a começar pelo proletariado, que delas precisam para destruir uma sociedade, a sociedade burguesa, e construir outra, a sociedade socialista.” A coletivização do campo teria encontrado “franca simpatia dos camponeses” e os “abusos” teriam sido desaprovados pelos dirigentes comunistas. E concluiu: o “resultado foi esplêndido.” Luís Carlos Prestes, que lá viveu de 1931 a 1934, disse, muitos anos depois, que “faltava tudo, até açúcar. Eu, que era estrangeiro e tinha carnê especial para comprar, passei três meses tomando chá sem açúcar.” A feroz ditadura era retratada da seguinte forma pelo historiador: “o regime soviético representa a mais perfeita comunhão de governados e governantes.” O mais aterrador é que em plena ditadura stalinista, Prado Júnior elogiou a “democracia russa e a consciência política popular.”
27 anos depois, – agora já um consagrado historiador, após a publicação de “Formação do Brasil Contemporâneo” (1942) e “História Econômica do Brasil” (1945) – regressou à União Soviética. Publicou seu relato: “O mundo do socialismo”. Ficou novamente entusiasmado. Logo de início diz que estava “convencido dessa transformação (socialista), e que a humanidade toda marcha para ela.” E mais: “procurei observar foi o processo de transformação, a evolução da sociedade humana do capitalismo para o socialismo, como primeira etapa para a implantação do comunismo de que já hoje, como se verá, se encontram as premissas na União Soviética.” Ironiza os que julgavam que “o socialismo [era] uma simples aberração, uma anormalidade e acidente fortuito da história de alguns povos que mais dia, menos dia, voltarão ao aprisco do capitalismo.”

Em 1960, Caio Prado não poderia ignorar a repressão. Josef Stalin tinha morrido em 1953. Três anos depois foi realizado o (célebre) XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Nikita Kruschev, o novo secretário-geral do partido, apresentou o relatório sobre os crimes de Stalin. A literatura sobre as gravíssimas violações dos direitos humanos nos países socialistas era muito conhecida.

A repressão à Revolução Húngara de 1956 estava ainda na memória. Mas o historiador não queria ver. Escreveu, sem corar: “Veja-se o que ocorre no terreno da liberdade de expressão do pensamento, oral e escrito. Nada há nos países capitalistas que mesmo de longe se compare com o que a respeito ocorre na União Soviética.” E continua escamoteando a ditadura: “os aparelhos especiais de repressão interna desapareceram por completo. Tem-se neles a mais total liberdade de movimentos, e, não há sinais de quaisquer restrições além das ordinárias e normais que se encontram em qualquer outro lugar.” Ignorando a polícia política, a censura, as prisões, o partido único e os campos de trabalhos forçados, o historiador chega afirmar que nos países socialistas “a ampla discussão coletiva de todos os assuntos de interesse geral faz parte essencial do funcionamento das instituições.” E a economia? Diz que “nos próximos vinte anos todos os cidadãos soviéticos terão direito a moradia, serviços públicos (inclusive transportes) e alimentação gratuitos.” E a religião? O “culto se exerce sem obstáculo ou constrangimento algum.” E isso se repetiu em inúmeros livros e reportagens. Como entender tal ocultação e mistificação do real?

Marco Antonio Villa é historiador.
Moraes, Denis e Francisco Viana. Prestes: lutas e autocríticas. Petrópolis. Vozes. 1982. p.56.
Ver Prado Júnior, Caio. URSS, um novo mundo. São Paulo. Nacional. 1934. pp.11-16, 23, 115 e 192.
Prado Júnior, Caio. O mundo do socialismo. São Paulo. Brasiliense. 1962. pp. 2, 4, 59-60, 73 e 146-147.