Artigo do historiador Marco Antonio Villa publicado Correio Braziliense e Estado de Minas: “A frustração vêm aí!”

A frustração vêm aí!

O cenário eleitoral para a eleição presidencial de outubro está absolutamente indefinido. Diferentemente de outros países democráticos, onde um processo eleitoral desta relevância já tem candidatos com muita antecedência representando ideologicamente frações da sociedade civil, aqui a indefinição é por ausência de postulantes ao mais alto cargo da República.

Muitos se apresentam como possíveis candidatos mas não formalizam a postulação. Usam do espaço do noticiário para se cacifar a outros cargos. E na ausência de solidez dos nomes já conhecidos acabam ganhando algum destaque e ocupando o vazio durante um breve período. Depois tudo volta ao normal e a indefinição continua.

Por estarmos passando pela crise mais grave da história republicana, isto poderia ser um atrativo para a construção de candidaturas que representassem a complexidade da sociedade brasileira contemporânea. Mas não. Os nomes já conhecidos estão olhando para o passado. Em momento algum – ao menos até agora – desenharam algumas ideias para enfrentar os graves (e novos) problemas nacionais. A complexidade dos dilemas das metrópoles brasileiras, por exemplo, tema sempre presente na imprensa, especialmente nos últimos trinta anos, é tratado de forma lateral pelos postulantes ao Palácio do Planalto. Recitam platitudes, quando muito.

Há uma absoluta dissintonia entre a sociedade civil e os partidos políticos. Estes continuam funcionando e agindo como se o Brasil ainda estivesse no século XX. Escolhem candidaturas e alianças eleitorais como seu o eleitor tivesse como única tarefa votar. E votar nos nomes determinados pelos proprietários das legendas. O cidadão é considerado, pela elite política, como mero instrumento passivo de preservação da ordem existente. Não cabe a ele ser um agente da mudança. Pelo contrário. Ele deve agir passivamente como elemento que referenda as determinações que vem de cima. Não pensa, não escolhe. Somente responde aos estímulos de forma controlada.

A ausência de um processo eleitoral à altura das necessidades do momento que vivemos aprofunda a crise política. Ou seja, o sistema não consegue construir novos caminhos. O velho é tão consistente e forte que impede qualquer solução fora dos padrões pré-estabelecidos pela elite política, carcomida, corrupta. Isto leva a um cenário que o pleito de outubro é visto apenas como uma obrigação, simples cumprimento do calendário eleitoral, nada mais que isso.
Apesar de estarmos a apenas 8 meses da eleição, a incerteza permanece.

Nem temos ainda sequer os nomes dos principais candidatos. Manobras continuam nos bastidores. Acordos – sempre lesivos ao interesse público – estão em marcha. Nada mais interessa a não ser ganhar, a qualquer preço, a eleição. A construção de programas com claro perfil ideológico são inexistentes, excetuando grupos extremistas sem qualquer representatividade.

Tudo indica que o pleito presidencial não será o caminho para a solução da crise política. Pelo contrário. A pobreza ideológica do processo eleitoral deverá levar à escolha de um presidente que dificilmente buscará o novo. Deverá estabelecer uma coalização governamental muito parecida à atual. A composição ministerial seguirá os velhos ditames estabelecidos desde a redemocratização de 1985.
Aí mora o problema: o país não aguenta mais esta estrutura impermeável à mudança. Assim, o pior cenário – e mais provável – é a permanência da crise política. Mais ainda se for potencializada pela permanência da frustração eleitoral. E desta forma a recuperação econômica deverá ter fôlego curto. Ou se manter em um patamar muito baixo frente às possibilidades do país.
Brasília continua governando o Brasil como se representasse a vontade popular. Não representa. E não é de hoje. A crise é longa e profunda. A tendência de agravamento é clara. O pior é que a elite política finge que não vê. Acredita que desta forma os problemas estarão solucionados. Ledo engano, óbvio. A cada dia aumenta o fosso que divide a sociedade civil do Estado. As bases de legitimação são questionadas a cada minuto. Poucos são aqueles que se sentem representados. A obediência é por mera passividade. A revolta ainda está na esfera das palavras. Mas poderá chegar a hora que passará para a ação e aí ninguém saberá até onde vai chegar a ira popular.

Não estamos próximos ao caos – já estamos nele! Inexiste alguma esfera do tão propalado Estado democrático de Direito que funcione. O cidadão está desesperadamente procurando uma saída. Neste processo poderá – o que também é provável – se agarrar a algum salvador da pátria. E até escolher um iluminado que tente representar o papel de candidato anti-sistema. Neste caso, insisto, a tendência é do aprofundamento da crise política, pois nada pior para a política do que o cidadão frustrado. O amanhã poderá ser pior que o hoje.

Marco Antonio Villa é historiador.

Um comentário sobre “Artigo do historiador Marco Antonio Villa publicado Correio Braziliense e Estado de Minas: “A frustração vêm aí!”

  • A INTERVENÇÃO MILITAR não seria a melhor opção? No dia 31 de março haverá passeata na Av Paulista para pedir a INTERVENÇÃO MILITAR, eu vou qual sua opinião?

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