Bolsonaro é o maior problema de Bolsonaro.

Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

Bolsonaro é o maior problema de Bolsonaro.


Marco Antonio Villa

Dez semanas bastaram para que o Brasil tomasse conhecimento do maior inimigo do governo Jair Bolsonaro: ele próprio, Jair Bolsonaro. Sim, o Presidente da República só não criou mais problemas para seu governo graças ao período que passou hospitalizado. Ele nem precisa de oposição. É caso único na história nacional. A cada dia vem uma nova surpresa. O mais estranho é que as condições políticas são extremamente favoráveis ao governo. O PT está enfraquecido, as centrais sindicais estão fragilizadas e os movimentos sociais não conseguiram se manter sem as benesses do poder petista. Mesmo assim, como em um mórbido processo de autodestruição, Bolsonaro procura minar as bases de credibilidade da sua presidência.

O ataque ao jornal O Estado de S. Paulo é incompreensível. Deu credibilidade a um site extremista – tão sujo como os criados pelo petismo. Isto quando nem fazia uma semana após o célebre – e lamentável – tuíte do vídeo pornográfico. Insiste em transformar a imprensa – que chama de mídia – em sua inimiga. Sataniza a liberdade de imprensa. Estimula os extremistas a desqualificar a democracia. Age – mesmo sem o saber (será?) – de forma idêntica ao PT. Não custa lembrar a ladainha do partido da imprensa golpista.

O Presidente comete o grave erro político de manter o clima de conflagração eleitoral. Não entendeu que hoje é o Presidente de todos os brasileiros – e não apenas dos que votaram nele. Mais ainda: sua vitória deve ser creditada ao simbolismo do voto anti-PT. Quem optou pelo seu nome frente ao poste não estava preocupado com o “marxismo cultural” ou o “gramscianismo” (à proposito: como o senhor os define?). A organização do seu governo ganhou a simpatia popular quando da designação de Sérgio Moro. O mesmo ocorreu com os ministros militares. No caso de Paulo Guedes o apoio veio do “mercado”. Formaram o que chamei em artigos anteriores de tripé positivo.

Mas, paradoxalmente, o senhor tem uma preferência declarada pelo tripé negativo formado pelo PSL, seus três filhos e os ministros pré-históricos (Ernesto Araújo, Ricardo Vélez e Damares Alves). E foram eles os causadores de todos os problemas do governo, enfraquecendo o tripé positivo, que acabou se recolhendo em um silêncio obsequioso. Foram racionais em meio à insanidade governamental.

Os setores responsáveis da economia e da política já detectaram a relação apaixonada do Presidente com os extremistas. É como se Bolsonaro ainda estivesse em seu pequeno gabinete na Câmara dos Deputados; tempos tranquilos quando podia falar o que bem desejasse sem que tivesse qualquer repercussão política, na bolsa ou no câmbio. A dificuldade em atravessar a Praça dos Três Poderes e ocupar o Palácio do Planalto – onde o discurso político tem de se modificar – construiu uma armadilha ao Presidente. Ele não se sente à vontade. Tem de fazer política, formar maiorias, dialogar com os opositores, tudo o que não fez em trinta anos de vida parlamentar. Sem uma profunda mudança de comportamento poderá perder o apoio indispensável para governar dos setores responsáveis da economia e da política.

Não serão as redes sociais que vão sustentá-lo politicamente. Ledo engano. As fontes tradicionais de poder continuam as mesmas. E estarão com o Presidente até quando ele significar a possibilidade de aprovar as reformas, reativar a economia e possibilitar a estabilidade política. Caso contrário, vão abandoná-lo e aí poderemos entrar em um novo período de grave crise política sem que seja possível desenhar o processo e muito menos suas consequências.

Caso a reforma da Previdência não for aprovada nos moldes gerais propostos pelo ministério da Economia, não é descartável que Paulo Guedes peça demissão. E, até o momento, Bolsonaro não parece suficientemente empenhado em aprová-la. Dá à impressão que não está convencido dos seus postulados. Que ainda se mantém na mesma posição de quando era deputado federal. Também já retirou a carta branca que teria dado a Sérgio Moro – vale destacar o silêncio do ex-juiz nos últimos dias. Já os ministros militares, especialmente aqueles que estão no Palácio do Planalto, andam demonstrando insatisfação com o voluntarismo presidencial e seus efeitos danosos no processo político.

Ainda é tempo do governo redefinir seu rumo. As condições são favoráveis devido à inexistência de uma oposição organizada. Mas a sucessão de erros pode também possibilitar uma reorganização dos seus adversários, bem como uma divisão na sua frágil base de apoio. Sem uma eficaz articulação com o Congresso, o governo será derrotado. A reforma da Previdência não é popular – apesar de necessária. Para fazê-la terá de construir uma maioria constitucional e, em dez semanas, nada fez para tal. Pelo contrário, produziu uma agenda negativa, extremista e divisionista que desgastou sua liderança. Nada ganhou. Tem de descer do palanque e começar a governar.

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