Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

Cem dias de governo: pouco a comemorar.


Marco Antonio Villa
Os primeiros cem dias do governo Bolsonaro foram marcados por um conjunto de pequenas crises. Em alguns ministérios – como o da Educação – a paralisia administrativa acabou se constituindo numa marca. Um misto de ignorância, inoperância e reacionarismo, acabou produzindo um coquetel nunca visto na história recente do Brasil. A exceção foram os ministérios da Economia e Justiça, além das pastas sob responsabilidade dos militares.
Já o Presidente Jair Bolsonaro demonstrou pouco apetite pelo trabalho. Basta observar a agenda presidencial de ontem, dia 9 de abril. Começou trabalhar às nove horas da manhã. Foi a uma sessão solene, portanto, absteve-se das tarefas administrativas. Somente às onze e meia voltou ao Palácio do Planalto para uma reunião com lideranças partidárias. Após o intervalo para o almoço foram registradas mais três atividades, somente uma afeita ao cotidiano do governo. Vale destacar que esta agenda, pouca afeita ao trabalho, não foi uma exceção. Pelo contrário, basta observar o último dia de visita à Israel. Não havia o que fazer. Nenhuma reunião de trabalho. Turismo puro: uma visita ao Santo Sepulcro e outra ao Muro das Lamentações. Para ser rigoroso, antes do périplo religioso condecorou o batalhão israelense que veio participar dos trabalhos de resgate das vítimas da tragédia de Brumadinho. E só. Isto é agenda de uma visita presidencial internacional?
A falta de foco foi uma característica deste início de gestão. As inúmeras declarações infelizes do Presidente desviaram a atenção dos graves problemas nacionais. Isto pode ser tributado a dificuldade de um trabalho organizado, da ausência de leitura de relatórios oficiais dos ministérios, do desconhecimento das ações de governo, da falta de reuniões setoriais e de uma dedicação excessiva ao ócio. É intolerável, em pleno horário de serviço, o Presidente se ausentar do trabalho para ir ao cinema. Isto em um país – só para citar um dado – com mais de 13 milhões de desempregados (excluindo os que desistiram de procurar emprego e os participantes do Bolsa Família; se agregarmos este todo em um número, não será exagero alcançarmos 30 milhões de brasileiros).
O culto à ignorância atingiu um patamar único na nossa história. A desqualificação de alguns ministros é evidente. Causam constrangimentos. Pior quando fazem parte da comitiva presidencial numa visita internacional. O deslumbramento pelos salamaleques é patente. Nas três viagens houve momentos constrangedores. Mas foi nos Estados Unidos onde alcançou o ápice. A subordinação aos ditames americanos foi uma marca nos encontros. Pior só a assinatura do tratado que permite que a base de Alcântara tenha áreas restritas. Isso mesmo: áreas restritas. Ou seja, o Brasil está cedendo parte do seu território para que um país estrangeiro possa lançar seus foguetes. É intolerável! O Congresso Nacional não deve aprovar este tratado lesivo a nossa segurança e que coloca em risco a soberania brasileira.
O mais estranho nestes cem dias foi a permanência da influência em áreas sensíveis do governo – com a da educação e das relações exteriores – do Jim Jones da Virgínia. O autoproclamado filósofo – que interrompeu seus estudos na antiga primeira série ginasial – continua dando as cartas. É inexplicável – racionalmente – entender como um desqualificado moral, que vivia, de acordo com o depoimento de sua filha, com três mulheres em São Paulo em uma casa no bairro da Bela Vista, isto quando era muçulmano, possa determinar quem vai ocupar o MEC ou o Itamaraty. A cidadania tem de exigir que o Presidente da República se afaste deste indivíduo que tem uma linguagem – basta consultar o Twitter – de marginal.
Jair Bolsonaro não entendeu até hoje que foi eleito em circunstâncias especiais, que não vão se repetir. A ampla maioria dos seus votos estão vinculados ao antipetismo. A sua plataforma foi ignorada. Acabou sendo o receptor natural do antipetismo devido à viabilização da sua candidatura. Era aquela que tinha mais chances de evitar o retorno do PT ao poder. Esta é a razão fundamental, não o trabalho de Carlos Bolsonaro nas redes sociais.
Ainda é tempo de Bolsonaro colocar ordem no governo. Terá de mudar, muito! Tem de entender a importância da democracia e das liberdades democráticas, algo que despreza – vide os constantes elogios ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ulstra. Precisa saber o significado de negociação. Urge compreender o papel do Congresso Nacional. Que não basta encaminhar uma proposta – como agora, a reforma da Previdência – e achar que já cumpriu seu papel. Não! Tem de edificar pontes com o Parlamento, esclarecer e negociar a reforma. Lutar para aprová-la pois, de acordo com o seu ministro da Economia, ela é indispensável para a recuperação econômica. Deve ler, ao menos, o resumo dos projetos, citar dados. Em suma, tem de trabalhar, levantar cedo e dormir tarde. Chega de ócio!