É a CIA que vai reescrever a história do Brasil?

Artigo do historiador Marco Antonio Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

É a CIA que vai reescrever a história do Brasil?

                                             Marco Antonio Villa

Um antigo documento da CIA – velha inimiga da esquerda brasileira – liberado pelo governo americano reabriu o debate sobre a luta armada e a repressão estatal. Os “agentes do imperialismo” passaram da noite para o dia em fonte histórica inquestionável. Um memorando foi divulgado sem que em momento algum houvesse algum tipo de questionamento. A reunião ocorreu? Como o governo americano teve acesso ao seu conteúdo? E os dados apresentados no documento foram checados? Agora é a CIA que vai escrever a história do Brasil contemporâneo da forma como bem deseja? O Brasil é um país fantástico: a CIA, de inimiga, virou fonte histórica da esquerda brasileira.

Em meio ao panfletarismo reapareceu a leitura de que a luta armada foi heroica, que os guerrilheiros – ou terroristas, depende do enfoque – combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas intrépidas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentar essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, sequestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
 Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968).

Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.
 O extremismo desses pequenos grupos – alguns com não mais de duas dúzias de militantes – deu munição para o terrorismo de Estado e acabou sendo utilizado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. Todos. A divergência é se o melhor caminho era o soviético, o chinês ou o cubano. A defesa da democracia estava absolutamente ausente das proclamações dos terroristas. Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um disparate.

A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
 Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista como Carlos Marighella ou o deputado Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da “ala autêntica”, precisa ser relembrada.

Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado. Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.


Um bom caminho para o país seria a abertura efetiva dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos “defensores da ordem” poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Optou-se por uma espécie de “cala-boca” financeiro. Rentável, é verdade. Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de vítimas do terrorismo. É fundamental rever as indenizações já aprovadas.

Enfim, é preciso romper os tabus construídos nas últimas cinco décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo. E mais: é um absurdo afirmar que o Palácio do Planalto determinava quem poderia viver. O regime militar brasileiro nem de longe se aproximou à repressão das ditaduras do Cone Sul. Em alguns desses países houve alguma lei de anistia, em pleno regime, como a de agosto de 1979, que permitiu o retorno de milhares de brasileiros que estavam no exterior e a libertação de todos os presos políticos?

6 comentários sobre “É a CIA que vai reescrever a história do Brasil?

  • Sua opinião é muito importante pra mim. Confesso gostar mais de história e de política por sua causa. Muito obrigado Prof. Villa

  • É uma dos sintomas de esquerdiopatia gravis -Esses elementos culpam(com razão ou não) o imperialismo estadunidense e seus agentes por todas as desgraças por eles mesmos impostas ao povo(os esquerdopatas).

  • Com a ausência do William Correa e agora mais recente a sua, perdi o interesse e motivação de assistir todos os dias o Jornal da Cultura. O William sei que foi para a Africa e o Senhor porquê nao tem estado mais lá????

    • Dayse
      Bom dia.
      O Prof. Villa está presente no Jornal da Cultura em dias alternados.
      No blog e nas redes sociais são informadas as datas.
      Obrigado.
      Blog do Villa.

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.