Marco Antonio Villa

É indiscutível a pobreza ideológica do debate pré-eleitoral no Brasil. Os pretensos candidatos à Presidência da República recitam fórmulas genéricas. Não conseguem abstrair qualquer problema além do óbvio ululante. E, boa parte deles, adoram adaptar ideias e visões do mundo do exterior, especialmente dos Estados Unidos, como a panaceia, a solução mágica de algum grave problema nacional. Isto ignorando que as duas formações sociais são absolutamente distintas. O processo histórico de constituição do Brasil teve uma séries de particularidades que são fundamentais quando comparadas às dos Estados Unidos. A mera cópia, sem realizar qualquer ação politicamente antropofágica, acaba transformando a ideia em algo exótico, bizarro. Pior ainda: o bom colonizado repete disciplinadamente o discurso do colonizador.

No século XX, especialmente a partir dos anos 1930, o principal embate ideológico foi entre os marxistas e liberais. Na maioria das vezes, os dois campos produziram pastiches adaptando a fórceps a especificidade brasileira aos cânones ideológicos ocidentais. Consequentemente, a qualidade e a originalidade da produção e do debate político-econômico foram ruins, não passando da recitação de slogans vazios.

Durante decênios assistimos a um embate entre dois modelos que o Brasil deveria seguir: o socialista (tendo na União Soviética a principal matriz) ou o capitalista (a referência maior era os Estados Unidos). Foi produzida ampla literatura — geralmente de qualidade sofrível. Nenhum dos dois lados conseguiu identificar que o Brasil teve uma história muito distinta. O desenvolvimento de um capitalismo tardio na periferia deu ao nosso pais tarefas e problemas a serem enfrentados que não eram os mesmos dos modelos apregoados pelos repetidores do liberalismo ou do marxismo.

O Estado forjado pela Revolução de 1930 passou a ter decisiva presença na economia devido a uma necessidade histórica. Não havia capitais privados para o enfrentamento das tarefas indispensáveis ao desenvolvimento nacional. Sem isso, o Brasil continuaria um país de segunda classe. O problema foi que, de um lado, os marxistas idealizaram este processo fechando os olhos para, entre outros problemas, o empreguismo e a corrupção. Por outro lado, os liberais demonizaram o intervencionismo estatal como se não houvesse distinções radicais entre a formação histórica brasileira e a estadunidense.
O regime militar estatizou grande parte da economia. A ação governamental priorizou o papel do Estado como agente indutor do desenvolvimento. E isto levou o país a se transformar em uma das maiores economias do mundo. Não houve qualquer veleidade socialista. Muito pelo contrário, não passou do velho intervencionismo defendido pelos militares desde a Revolução de 30, onde a supressão das liberdades seria substituída pelo Estado forte e modernizador, de acordo com seus pregoeiros. Basta recordar o número de empresas estatais criadas no governo Geisel (1974-1979) e, entre outros exemplos, o desenvolvimento do setor petroquímico.

Diferentemente de outros regimes autoritários do Cone Sul, no Brasil a prioridade não foi a privatização da economia, o encolhimento do Estado e a abertura do mercado para o capitalismo internacional. Aqui ampliou-se em escala nunca vista na nossa história a presença estatal na economia e o protecionismo. O afastamento em relação aos Estados Unidos, muito claro no quinquênio Geisel, é produto deste processo. Não custa recordar o estabelecimento de relações diplomáticas com a República Popular da China, o acordo nuclear com a Alemanha Ocidental e o reconhecimento do regime angolano, isto quando o MPLA controlava somente Luanda e seus arredores.

Foi a redemocratização, em 1985, que iniciou um lento programa de desestatização. Não pode ser esquecida as medidas de liberalização adotadas na presidência Collor (1990-1992) e as primeiras privatizações como da Usiminas e da Vale do Rio Doce, além, claro, da quebra do monopólio estatal das telecomunicações. Houve um leve retrocesso durante os 13 anos do projeto criminoso de poder petista mas que em momento algum significou um retorno ao domínio estatista existente no regime militar. O petismo, aí sim, deixou sua marca nesta história pelo aparelhamento do Estado e não, fundamentalmente, pela sua expansão, o que tem outro significado.

Se o marxismo é página virada na nossa história, o liberalismo de importação de matriz americana não o é. Pelo contrário, está na moda. Seus sacerdotes adotam uma leitura mistificadora da história do Estado brasileiro e apresentam falácias como verdades incontestáveis. Sem vestir o figurino de Policarpo Quaresma, cabe pensar o Brasil de acordo com o nosso processo histórico, com a nossa produção de ideias, não agindo como papagaios de outrem. Podemos caminhar, no campo do pensamento, com nossas próprias pernas.