Monteiro Lobato, um brasileiro.

Marco Antonio Villa

Em um país com poucos heróis, Monteiro Lobato, certamente, é um deles. Neste ano completam-se 70 anos da sua morte. Ele assemelha-se ao coronel Aureliano Buendía, de “Cem Anos de Solidão”, que “promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas”. Lobato foi um intelectual que criticou violentamente as elites e o marasmo do povo brasileiro. Foi também um nacionalista, profundamente antiestatista. Escreveu, polemizou, combateu, foi preso, mas nunca adulou o poder, algo raríssimo entre os nossos intelectuais.


Quis mudar o Brasil. Não suportava viver num país que era um “pântano com 40 milhões de rãs coaxantes, uma a botar a culpa na outra do mal-estar que sentiam.”
Quando herdou do avô a fazenda Buquira, Lobato iniciou sua trajetória de empresário agrícola: abandonou a monocultura do café, importou cabras, galinhas e porcos, diversificou a plantação, construiu um lago, enchendo-o de marrecos e gansos.

Em 1917, cansado da vida monótona da fazenda, vendeu-a. No ano seguinte comprou a Revista do Brasil, que se transformou também em editora, e publicou seu primeiro livro, “Urupês”, um grande sucesso. Em 1919 fundou a Monteiro Lobato & Cia.” Criou centenas de pontos de venda de livros, escreveu livros infantis e traduziu vários autores clássicos. Porém, o período de prosperidade foi interrompido pela deflagração da Revolução de 1924, em São Paulo. Logo em seguida, a Light diminuiu drasticamente o fornecimento de energia elétrica para a cidade, prejudicando a operação da gráfica. Para complicar ainda mais a situação, as operações de redesconto no Banco do Brasil foram suspensas, gerando um pânico financeiro. A editora acabou sendo obrigada a abrir falência.

Mas Lobato não desistiu: no ano seguinte, junto com Otales Marcondes Ferreira, fundou a Companhia Editora Nacional. Após breve passagem pelo Rio de Janeiro foi enviado pelo presidente Washington Luís aos Estados Unidos como adido comercial. Em 1922 tinha escrito que gostaria de “viver num país vivo, como o dos americanos! Isto não passa dum imenso tartarugal. Tudo se arrasta”. Visitou várias cidades, conversou com empresários. Interessou-se pela siderurgia. Mas acabou sendo atingido pela crise de 1929. Lobato, impressionado com o dinamismo da economia americana, tinha investido na Bolsa de Valores. O “crack” acabou levando todas as suas economias. Teve de vender a sua participação na “Companhia Editora Nacional”. Insistiu em comprar mais ações na Bolsa novaiorquina e acabou perdendo tudo.

Ao retornar ao Brasil, a grande luta de Lobato foi pela exploração de petróleo. Debate pelos jornais; faz conferências. Criou diversas empresas para iniciar a exploração do petróleo, mas sempre esbarrou na burocracia oficial e nos interesses dos trustes, em especial da Standard Oil. Quando publicou em 1936 , o livro causou um grande impacto: em alguns meses vendeu quatro edições. Porém, com a chegada do Estado Novo, o livro foi retirado das livrarias e proibidas novas reedições.


Lobato não cedeu. Fez criticas severas ao Conselho Nacional de Petróleo (CNP), criado em 1938. Para Lobato, o CNP impedia “as empresas nacionais até de gemer.” O nacionalismo de Lobato sempre foi antiestatal. Atacou o governo, reputando-o inepto para dirigir uma simples estrada de ferro, mas apesar disso queria normatizar todas as atividades econômicas, acabando por “transformar a complexíssima economia da nação numa vasta Central do Brasil”. Desanimado, desabafou: “Os nossos estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro – com o calcanhar, com o cotovelo, com certos penduricalhos -, raramente com os miolos”.

Mesmo com o Estado Novo, Lobato continuou a fazer críticas. Em maio de 1940 escreveu longa carta a Getúlio Vargas. Atacou o CNP e pediu ao ditador que “pelo amor de Deus ponha de lado a sua displicência e ouça a voz de Jeremias”, pois “se vai generalizando a opinião de que a política oficial obedece, mais do que nunca, aos interesses do imperialismo da Standard Oil”. Lobato acabou preso e condenado a seis meses de prisão. Foi indultado noventa dias depois. Não perdeu a oportunidade de escrever uma carta ao general Horta Barbosa, presidente do CNP: “Passei nesta prisão, general, dias inolvidáveis, dos quais sempre me lembrarei com a maior saudade. Tive ensejo de observar que a maioria dos detentos é gente de alma muito mais limpa e nobre do que muita gente de alto bordo que anda solta”.


O guerreiro estava estafado. Em 1945 veio a redemocratização. Participou da criação da editora Brasiliense com Caio Prado Jr. Continuou escrevendo. Doente, brincou com seu estado: “Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto e vírgula ou ponto final”. Na antevéspera da morte, numa entrevista, dissertou sobre o petróleo. Morreu a 4 de julho de 1948.

Marco Antonio Villa é historiador.