Marco Antonio Villa

No último dia 4 de julho passou em branco o aniversário dos setenta anos da morte de José Bento Monteiro Lobato. É até justificável. Nos tempos sombrios que vivemos, um brasileiro como o grande escritor, editor e defensor dos interesses nacionais, merece o esquecimento. Depois de permanecer quatro anos nos Estados Unidos (1927-1931), o já célebre escritor voltou ao Brasil determinado a defender a necessidade da exploração do petróleo. Considerava como a razão da soberania dos Estados modernos e indispensável à libertação econômica. Debate pelos jornais e em conferências com aqueles que achavam absurdo o Brasil ter petróleo. Criou diversas empresas para iniciar a exploração do “ouro negro”, mas sempre esbarrou na burocracia oficial e nos interesses dos trustes, em especial da Standard Oil.

Quando publicou em 1936 “O Escândalo do Petróleo”, o livro causou um grande impacto: em alguns meses vendeu quatro edições. Porém, com a chegada do Estado Novo (novembro de 1937) foi retirado das livrarias e proibidas novas reedições.
 Lobato não desistiu. Da mesma forma como atacou duramente o Código de Minas de 1934 por criar inúmeros embaraços à exploração do subsolo aos empreendedores privados brasileiros, fez criticas severas ao Conselho Nacional de Petróleo (CNP), criado em 1938 e para muitos considerado um símbolo da defesa das riquezas naturais do Brasil.

Para Lobato, o CNP impediu “as empresas nacionais até de gemer”; o seu diretor, o general Horta Barbosa, era leigo no assunto, autoritário e incompetente.
 Na época falava-se muito em “economia dirigida”, certamente por influência dos planos quinquenais soviéticos, mas o nacionalismo de Lobato sempre foi antiestatal. Atacou o governo, reputando-o inepto para dirigir uma simples estrada de ferro, mas apesar disso queria normatizar todas as atividades econômicas, acabando por “transformar a complexíssima economia da nação numa vasta Central do Brasil”. Desanimado, desabafou: “Os nossos estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro -com o calcanhar, com o cotovelo, com certos penduricalhos-, raramente com os miolos”.
 Na defesa do petróleo fez questão de não ser confundido com um chauvinista. Ao contrário, reconheceu a necessidade de contar com a colaboração das empresas estrangeiras e de suas técnicas, pois “nada faremos de positivo, se teimarmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau”.

A questão central era manter o controle nacional do subsolo explorado pela iniciativa privada em associação com empresas estrangeiras, sem a participação estatal na esfera da produção.
 Mesmo com o Estado Novo, Lobato continuou a fazer críticas à política governamental. Em maio de 1940, quando a França estava sendo conquistada pela Alemanha nazista, escreveu longa carta ao ditador Getúlio Vargas. Atacou o CNP e pediu a Vargas que “pelo amor de Deus ponha de lado a sua displicência e ouça a voz de Jeremias”, pois “se vai generalizando a opinião de que a política oficial obedece, mais do que nunca, aos interesses do imperialismo da Standard Oil”.

Segundo Lobato, para o CNP “as palavras “pátria’ e “nacionalismo’ dançam um fox-trot no palco dos “considerados’ justificatórios -mas no fim da dança só saem ganhando as companhias estrangeiras que nos vendem petróleo”.
 Meses depois o governo deteve Lobato e o condenou a seis meses de prisão. Foi indultado, mas mesmo na prisão não perdeu a oportunidade de escrever uma carta ao general Horta Barbosa, seu velho inimigo: “Passei nesta prisão, general, dias inolvidáveis, dos quais sempre me lembrarei com a maior saudade.

Tive ensejo de observar que a maioria dos detentos é gente de alma muito mais limpa e nobre do que muita gente de alto bordo que anda solta”.
 O combatente estava esgotado. Tinha tentado criar várias empresas para explorar petróleo mas sempre esbarrou na burocracia governamental e nos interesses estrangeiros. Usou até da literatura para divulgar para as crianças a sua luta, como n’O poço do Visconde (1937). Mas o pensamento oficial dominante é que não havia petróleo no Brasil – os mais otimistas diziam que o que poderia ser encontrado não justificaria a exploração econômica. Lembra Galeão Coutinho que Lobato foi o primeiro escritor brasileiro que não sentiu vergonha de ser um homem de negócios, afastando-se do padrão do intelectual que vive à sombra do Estado. Pouco antes de morrer, escreveu que tinha passado a “vida querendo fazer dinheiro com a indústria para escrever por distração. Acabei ganhando dinheiro com a literatura para perdê-lo na indústria.”

Em tempos que um presidiário, organizador do maior desvio de recursos públicos da história, é recordado por parcela da população como o candidato ideal à Presidência da República, é melhor esquecer de José Bento Monteiro Lobato.
Marco Antonio Villa é historiador.