Retomar o caminho do Barão do Rio Branco.

Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas

“Retomar o caminho do Barão do Rio Branco.”

Marco Antonio Villa

A designação de Ernesto Araújo para chefiar o Itamaraty poderá servir de um ponto de inflexão na política externa brasileira. Houve uma mudança já nas gestões de José Serra e Aloísio Nunes Ferreira que deve ser elogiada. Foi abandonada a política irresponsável imposta pelo Partido dos Trabalhadores durante 13 anos e que afastou o nosso país de aliados tradicionais e de uma forma de encaminhar nossos assuntos exteriores. Cabe agora construir uma sólida política externa que defenda os interesses nacionais e não projetos político-partidários. Tivemos no passado bons exemplos como durante as gestões de Afonso Arinos de Mello Franco (1961) e de Azeredo da Silveira (1974-1979).

Vale a pena recordar trágicos e tristes momentos quando o Itamaraty acabou se transformando em um puxadinho do PT. O ministro Celso Amorim foi o melhor representante deste período. Na crise de Honduras (2009) as trapalhadas chegaram ao ápice. O Brasil, como é sabido, não tem nenhuma vinculação histórica com a América Central. Contudo, o governo brasileiro insistiu em ter participação direta na crise hondurenha. Queria demonstrar liderança regional numa área historicamente de influência norte-americana. Como uma espécie de recado aos Estados Unidos (à época tendo como Presidente Barack Obama), comunicava que o Brasil era a nova potência da região. Potência sem “marines”, mas com muita retórica e bazófia. Claro que tinha tudo para dar errado, como se, em um filme de faroeste, John Wayne fosse substituído por Oscarito, o célebre ator das chanchadas da Atlântida.

A aventura alcançou o ápice quando Manuel Zelaya chegou à embaixada brasileira. Minutos depois, recebeu a adesão de centenas de seguidores. Logo o local virou um acampamento. A tradição latino-americana se impôs. Muitos discursos, acusações, traições e atos de valentia sem nenhuma consequência prática. E tudo isso na embaixada brasileira, território nacional. Quando o governo hondurenho cercou o prédio, o ato foi considerado autoritário. Imagine o que faria o governo cubano se um líder “contrarevolucionário” entrasse na embaixada brasileira em Havana e de lá insuflasse a população cubana à rebelião… Zelaya tinha sido deposto democraticamente pelo Congresso hondurenho e se abrigou 4 meses na nossa embaixada. Acabou indo brevemente para o exílio e retornou ao seu país sem ter mais qualquer papel político de importância. Celso Amorim declarou diversas vezes que lá em Honduras estava sendo jogada a sorte da democracia na América. Pura falácia. Era intervenção explícita nos assuntos internos de Honduras, rompendo com princípios tradicionais da Casa de Rio Branco.

Estranhamente, essa determinação não foi aplicada na América do Sul. Mais ainda quando nossos vizinhos agem deliberadamente contra os interesses brasileiros, violando tratados, leis e contratos. Tivemos o caso das refinarias da Petrobras na Bolívia, que foram tomadas abusivamente pelo governo local. Tivemos a insistência paraguaia impondo a revisão do tratado de Itaipu 15 anos antes do seu término – e triplicando o preço da energia vendida ao Brasil. Tivemos, também, as sucessivas violações do tratado do Mercosul realizadas pela Argentina e as abusivas medidas adotadas pelo governo equatoriano contra empresa brasileira. A tudo isso as presidências Lula assistiram passivamente, sem mover um dedo. Pelo contrário, concordou com as arbitrariedades, desmoralizou as gestões anteriores do Itamaraty e, assim, abriu caminho para que amanhã um governo resolvesse, de moto próprio, descumprir um tratado ou acordo com o Brasil.

A simpatia política com os governos chamados bolivarianos e subserviência a eles chegou ao ponto da absoluta irresponsabilidade. A Colômbia tentou estabelecer uma política de cooperação com o governo Lula para melhorar a fiscalização da fronteira, e sistematicamente tratada com hostilidade, inclusive nos fóruns regionais, sem esquecer o namoro do Itamaraty com as FARC. Já a Venezuela era tratada como aliada, mesmo tendo uma política externa agressiva, sustentada por fabulosas compras de modernos armamentos. E, como o que está ruim podia piorar, a Venezuela entrou no Mercosul com o apoio entusiástico de Amorim. 
 A diplomacia brasileira tentou por todos os meios ter presença diretiva em vários organismos internacionais e no Conselho de Segurança da ONU. Como necessitava de votos, considerou natural ignorar graves violações dos direitos humanos em vários países (como o genocídio de Darfur, no Sudão), apoiou ditadores (como Muammar Gaddafi, na Líbia) e até fez campanha para um aspirante a diretor-geral da Unesco notabilizado por declarações de cunho antissemita. Mesmo assim, as pretensões brasileiras foram derrotadas, e a estratégia fracassou.

A tarefa agora é o da defesa dos interesses nacionais, evitando alinhamentos automáticos e retomando os princípios do Barão do Rio Branco.

Marco Antonio Villa é historiador.

3 comentários sobre “Retomar o caminho do Barão do Rio Branco.

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.