Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Lula, quem diria, acabou em um presídio.”

                                                             Marco Antonio Villa

O culto ao ex-presidente Lula – hoje presidiário – chegou a tal ponto que não causará estranheza se alguma edição “popular” da Bíblia iniciar com: “No princípio, Lula criou…”. Esse fenômeno nasceu nos anos 1970. Foi produzido por um conjunto de fatores. De um lado, pela ausência de novas lideranças sindicais, produto da supressão das liberdades pelo regime militar. Por outro, devido à repressão que atingiu o Partido Comunista Brasileiro, além das cisões – os famosos rachas – do final da década de 60. O PCB acabou perdendo espaço no movimento operário. E a pequena influência que manteve foi por meio de alianças com os sindicalistas conhecidos pela alcunha de pelegos.

Foi nesse campo aberto que apareceu Luiz Inácio Lula da Silva, em 1977. Tinha sido eleito, dois anos antes, presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Após a divulgação do relatório do Banco Mundial, em que ficou demonstrado que o índice de inflação de 1973 tinha sido manipulado por Delfim Netto, então ministro da Fazenda, Lula iniciou uma campanha pela reposição salarial. Não obteve resultado, mas chamou a atenção da imprensa nacional.
 O novo líder operário foi imediatamente adotado por alguns intelectuais de São Paulo. Eles criticavam Vargas, o PCB e o populismo. Ambicionavam participar da grande política, mas não tinham voto. A eles se somaram os derrotados da luta armada, também sem influência popular, e os membros das comunidades eclesiais de base, da Igreja Católica. Estes últimos obtiveram ampla inserção nos movimentos sociais, que surgiram nos anos 1970, mas careciam de formação política sólida.
Sustentado por essas três vertentes, Lula foi incensado como líder popular: antipopulista, anticomunista e católico.

Em pouco tempo, transformou-se na maior referência do sindicalismo. As greves de 1978-1980, dirigidas de forma atabalhoada, fizeram a transição de líder sindical para dirigente partidário.
 Em 1980 foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e seu primeiro presidente. Outra vez Lula foi usado como referência de ruptura. O PT seria o primeiro partido de trabalhadores do Brasil, apagando a história de mais de 60 anos dos partidos operários. Anos antes, os mesmos intelectuais haviam transformado Lula no primeiro sindicalista “autêntico” do ABC, isto em região que teve movimentos grevistas desde a década de 10 e que tinha eleito o primeiro prefeito comunista do Brasil, em Santo André, em 1947. Mas a história de nada valia. Ele era o “novo.” Tudo o que falava era considerado original, genial. Era um intérprete da sabedoria popular que não estava nos livros – livros que, por sinal, Lula fazia questão de desprezar. Quando exagerava na dose da “espontaneidade” -como numa entrevista, em 1979, em que elogiou a “determinação” de Adolf Hitler-, era perdoado.

Durante 20 anos participou de cinco eleições. Ganhou uma, em 1986, eleito deputado constituinte. Mesmo assim, o mito não foi abalado. Pelo contrário, os intelectuais do partido transformaram as derrotas em vitórias políticas, sempre encontrando alguma razão para os fracassos.
 O processo de construção mítica foi ampliado depois da eleição de 2002. Todos os êxitos do governo foram creditados a ele, e as dificuldades e problemas de difícil resolução a curto prazo foram imputados a uma herança maldita dos governos anteriores, especialmente da presidência FHC. Continuou contando com a colaboração entusiástica de intelectuais. Tudo o que falava ou fazia era considerado extraordinário. 
 Na crise do mensalão, o encanto não foi quebrado. Foi, segundo os seus epígonos, uma trama da imprensa golpista. Mais uma vez, a figura de Lula era o divisor de águas. O caixa dois teria sido colocado de ponta-cabeça. Os destinatários dos recursos não contabilizados seriam o partido e a campanha. Era a corrupção positiva, companheira.

Com a reeleição, em 2006, o mito chegou ao auge. Ultrapassou até as fronteiras nacionais. O ufanismo entrou na ordem do dia. Se Stalin, pouco antes de morrer, dissertava sobre linguística, Lula passou a explicar até as variações climáticas. Fez tudo o que quis. Nunca se importou com os valores republicanos. Usou o cargo para organizar o maior desvio de recursos públicos da história da humanidade, o petrolão. Como um Macunaíma do século XXI, abandonou a consciência na ilha de Marapatá: “Deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas.”


Em 2010 conseguiu eleger um poste. Sonhava retornar à Presidência da República porém teve o caminho, ainda em 2014, são as ironias da História, sendo impedido pela criatura que ele próprio tinha inventado. A incapaz se reelegeu. Parecia que teria de esperar até 2018 e – se possível – em um cargo ministerial. Mas tinha uma pedra no caminho: a Lava Jato. E o prédio público que passou a ocupar, ao invés do Palácio do Planalto, foi um presídio.

Marco Antonio Villa é historiador.

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