Artigo Prof. Villa na Istoé: “Cidades conflagradas”.

Marco Antonio Villa

Ao longo do século 20, as grandes interpretações do Brasil acentuaram as mudanças que estavam ocorrendo, em ritmo acelerado, no País. Era o momento da migração campo-cidade. O Brasil rural estava sendo deixado para trás. E surgiam as grandes cidades. Já nos anos 1950, duas delas suplantaram um milhão de habitantes: Rio de Janeiro e São Paulo.

O desafio do poder público era atender as novas demandas colocadas por uma população recém-chegada às cidades. Esse é o momento histórico privilegiado do populismo, no sentido clássico. Não foi tarefa fácil ampliar o sistema educacional, a malha viária, os transportes, o atendimento médico, entre outros desafios. Era considerado um orgulho o crescimento demográfico de 3% ao ano. As cidades, quanto maiores, melhores. São Paulo comemorou, ainda nos anos 1950, ter suplantado o Rio de Janeiro, então capital federal, em população. Propagava aos quatro ventos o título de cidade que mais crescia no mundo.

Com a expansão industrial e do setor de serviços, as metrópoles foram se espalhando pelo território. E atraindo em grandes levas a população rural. O contínuo crescimento econômico, a demanda por força de trabalho e a melhoria da qualidade de vida foram os principais elementos que em pouco tempo levou a uma profunda mudança na distribuição da população brasileira.
Com a crise do final do regime militar – durante o governo Figueiredo – o poder público perdeu as condições para atender as novas necessidades impostas por uma geração que já tinha nascido nas cidades. Ou seja, se nos anos 1940-1950, a qualidade de vida urbana, por mais simples que fosse, era muito superior ao cotidiano do mundo rural, nos anos 1980 as exigências foram crescendo – assim como os problemas na educação, saúde, segurança pública, moradia. E não havia recursos suficientes – e nem uma correta política urbana, com raríssimas exceções, como Curitiba.

Nesses 30 anos, o que era ruim, piorou. Não vivemos em cidades. São verdadeiros acampamentos de beduínos, parodiando Euclides da Cunha. E ao invés de enfrentarmos os graves problemas urbanos, fomos nos adaptando, como Lamarcks tupiniquins. Criamos mecanismos de autodefesa frente a violência. Representamos uma vida urbana que não existe. Estamos em meio a uma guerra civil.

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.