A conciliação, dessa vez, não será possível.

                                                        Marco Antonio Villa

A prisão de Luiz Inácio Lula da Silva é um importante marco histórico. Abre a possibilidade de eliminar os hediondos privilégios da elite política. A garantia de que a impunidade — e seus eternos recursos — fosse o escudo protetor para o contínuo saque da coisa pública terminou. É uma ruptura. Não sabemos ainda — no calor da hora — a sua extensão. E muito menos a sua profundidade.

Nunca na história recente a elite esteve tão fragilizada. A oportunidade de proclamar a República, apenas anunciada em 1889, pelo marechal Deodoro da Fonseca, é agora — entendendo-se o agora no interior de um processo histórico. A insatisfação popular chegou ao ápice. Não há quem defenda com entusiasmo a ordem atual. Suporta-se, apenas isso. É a ausência de alternativas que explica o sentimento de impotência. Em outras palavras, sabe-se o que não quer, mas não o que quer. E essa contradição se não for rapidamente solucionada pode abrir caminho para uma aventura sem qualquer consistência ideológica — e de curta duração no tempo — agravando ainda mais a crise estrutural brasileira.

Do lado do poder, a resposta é uma tentativa de união dos contrários, de todos os partidos políticos — os mais importantes, claro. Há o receio de que a prisão de Lula seja somente a primeira de muitas. Não são infundados esses temores. Afinal, o Brasil é o País mais corrupto do mundo ocidental. E a corrupção perpassa as estruturas dos três poderes da República, e nas três esferas: federal, estadual e municipal. Nunca é demais lembrar que a corrupção acabou se transformando em um sistema complexo. Se fosse simplesmente um negócio entre corruptor e corrompido de há muito teria sido extinto. Mas não. Envolve milhares de pessoas entranhadas na máquina de Estado e que encontram na frágil institucionalidade — frágil no sentido da defesa da coisa pública — a oportunidade para a realização de milionárias transações acobertadas pelo sistema legal que, em tese, deveria defender o cidadão, mas acaba protegendo o corrupto e seus sócios.

Haverá, com a mais absoluta certeza, ampla mobilização para salvar Lula. Pois a sua salvação é também a sobrevivência da elite corrupta — compreendendo-se elite não só a política, mas a empresarial, os altos funcionários do Estado e de suas empresas e bancos. Contudo, nada indica que uma conciliação pelo alto resolverá a crise estrutural.