Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:”Jorge Amado e o culto a Luís Carlos Prestes.”

Marco Antonio Villa

Jorge Amado e o culto a Luís Carlos Prestes.

Agosto pode ser lembrado também como o mês Jorge Amado. O celebrado autor baiano nasceu no dia 10, em 1912, em Itabuna; faleceu a no dia 6, em 2001,em Salvador. Da sua vasta obra vale a pena destacar “O cavaleiro da esperança. Vida de Luís Carlos Prestes”, publicado originalmente em 1942. Para Amado, contar a vida de Prestes era uma tarefa ideológica. Segundo ele, “diante da sua enorme figura não me sinto amedrontado. Ante ele ninguém sente medo. Infunde coragem e vontade de vencer. Nunca medo diante dele, sempre amor.”

A descrição do nascimento de Prestes é exemplar. A associação com o nascimento de Jesus Cristo e a aparição dos Reis Magos – destacando-se a “negra empregada” da família representando um dos reis, Baltazar, de acordo com a tradição cristã – são traços evidentes, na busca de relacionar Prestes com o Messias: “Assim aquela negra empregada dos Prestes que, na manhã de 3 de janeiro de 1898, corria as casas da Rua Riachuelo anunciando que nascera aquele que havia de ser uma estrela. Era o que ela descobria nos olhos vivos do infante. O brilho de uma estrela, tão forte que a assustou, uma luz ardente.”

A construção do mito do Salvador percorre a infância de Prestes que, seguindo o pai, um oficial do exército, pelas guarnições no Rio Grande do Sul, consegue, apesar da idade, entender as complexas relações sociais, econômicas e políticas, como um sociólogo mirim: “O menino Luiz Carlos encheu os olhos com o espetáculo dos homens no campo, aqueles que não tinham terra e viviam curvados sobre a terra trabalhando para os que se haviam apossado dela. Viu nas cidades os donos das fábricas acumulando dinheiro à custa dos que trabalhavam nas fábricas e dos que compravam os produtos das fábricas. Viu o operário, o camponês, o pequeno-burguês, viu o povo sofrendo. Era uma criança séria. Sorria e brincava como as demais crianças, corria e brigava, mas costumava muitas vezes parar num canto, o rosto concentrado, pensando. Essa criança se acostumou a pensar e a tirar conclusões do que via.”

Na Escola Militar continuou a santa caminhada: “Ganhou a confiança e admiração dos colegas. Esse rapaz que em breve seria o mais amado dos brasileiros, herói de todo um povo, a esperança de uma pátria, já tinha então esse dom de irresistível simpatia. (…) Esse rapaz lhes mostrava todos os dias que ninguém pode viver somente para si existindo os homens lá fora, estrangulados pela fome de pão, de liberdade e de cultura. ” Continua Amado: os colegas “viam nele um chefe, alguém que sabia mais e que via mais claro, alguém que não ficava nos livros, lia na vida e começava a falar do futuro como as profetisas que leem nas linhas das mãos.”

Um dia, o jovem capitão se rebelou e iniciou o que ficou conhecido como Coluna Prestes (1924-1927). Percorreu milhares de quilômetros, como numa Via Sacra. Os sertanejos assistiram a passagem dos soldados sem entender seu significado. Distantes dos grandes centros urbanos e politicamente isolados, restou o exílio inglório na Bolívia. Lá “ele iria receber dos seus admiradores o presente de uma biblioteca marxista completa.” Aí, tudo mudou: “Agora tinha uma formação marxista, ganhara novos elementos para a sua visão revolucionária.”

A conversão completa foi a ida à União Soviética, em 1931. Lá permaneceu por 3 anos: “onde homens novos estavam construindo uma nova civilização. Os homens que haviam tomado pela estrada pela qual ele ingressava agora. Um novo mundo nascia, os problemas resolvidos, as soluções encontradas,” Afinal, de acordo com Amado, lá era a “pátria dos trabalhadores do mundo, pátria da ciência, da arte, da cultura, da beleza e da liberdade. Pátria da justiça humana, sonho dos poetas que os operários e os camponeses fizeram realidade magnífica.” Sobre a repressão stalinista e os milhões de mortos, nenhuma palavra.

Mas um dia veio o chamado da sua terra: “Até Moscou, onde ele trabalhava e estudava febrilmente, chegam os ecos do clamor do Brasil infelicitado. Seu nome como a única esperança, seu nome chegando dos sertões que ele percorrera com a Coluna, das cidades que ele levantara, dos rios e das montanhas, da selva e da caatinga. Seu nome atravessando os mares, um pedido de socorro. Seu povo o chama, necessita dele, sua presença, sua coragem, sua decisão, sua honestidade, seu saber e seu gênio.” E ele, claro, voltou. A insurreição, em 1935, foi um fracasso. O Messias não foi reconhecido pelo “seu” povo. O autor novamente não emite nenhum julgamento crítico. A prisão acaba se transformando em mais um componente do martírio. De lá “como uma estrela de poderoso brilho e de límpida luz, ele espalha sobre o Brasil a esperança.” E “partirá na frente do seu povo para a festa de construir uma pátria feliz, livre da escravidão, pátria da alegria, do trabalho, da liberdade e do amor!”

Marco Antonio Villa é historiador.

7 comentários sobre “Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:”Jorge Amado e o culto a Luís Carlos Prestes.”

  • Seria risível tal ode a alguém e a uma ideologia não fosse o fato que muita gente nessaaAmérica latina esquecida por Deus ainda acredita e deseja implantar tal regime opressor.

  • Esse pessoal da esquerda é tudo farinha do mesmo saco!!! Enaltece só o lado ” bonito”!! Agora : defeitos, erros… JAMAIS, EM TEMPO ALGUM!!!

  • Villa , felizmente Jorge Amado retratou se de seu erro . Ha poucos dias recebi um vídeo com uma entrevista aonde ele se arrependia de ter defendido o estalinismo é o regime totalitario da Rússia. Neste video entrevista ele estava ao lado de sua mulher Zélia Gattai .

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.