“A crise econômica tem nome: Paulo Guedes.”

Meu artigo publicado no Correio Braziliense e Estado de Minas:

A crise econômica tem nome: Paulo Guedes.

Marco Antonio Villa

               Marco Antonio Villa

   Não é mais possível esconder o fracasso da política econômica do governo. As sucessivas quedas do índice Bovespa nas últimas semanas, a disparada do dólar – alcançando o maior valor nominal desde o plano Real -, o fracasso do leilão do pré-sal, a retirada de bilhões de dólares de investimentos estrangeiros – a maior desde a crise de 2008 -, a queda das reservas internacionais em apenas cinco meses no valor de 22 bilhões de dólares, a permanência de milhões de desempregados, são claras evidências  que as projeções  de crescimento da economia feitas em janeiro estavam absolutamente equivocadas.

Tudo indica que o aumento do PIB deve ficar abaixo de 1%, menos da metade do que tinha sido estimado pelas consultorias econômicas, que, como de hábito, erraram feio. E, no horizonte de curto prazo, as perspectivas são sombrias. Em 2020 o crescimento do PIB deve ser próximo ao de 2019. Se há preocupações com o mundo exterior, como na turbulenta relação entre China e Estados Unidos, com os acontecimentos de Hong Kong, as permanentes tensões no Oriente Médio – os protestos no Irã podem se alastrar – , o retorno da América do Sul ao antigo caminho de governos instáveis e questionados nas ruas, como na Bolívia, Equador, Peru e Chile, especialmente; são fatores internos que explicam e determinam fundamentalmente a estagnação econômica. No caso dos nossos vizinhos, basta recordar os anos 1960-1970 quando viveram graves crises – marcadas por sucessivos golpes de Estado – isto não significou para o Brasil algum tipo de interferência direta na economia. Pelo contrário, neste período o país chegou a crescer mais de dois dígitos ao ano.   

    Mesmo neste cenário preocupante, Paulo Guedes continua a apresentar projetos e emendas constitucionais em enorme profusão. Como se o sucesso da gestão desse a ele um cacife político ao estilo Delfim Netto nos anos do milagre. Não é o caso. Sua gestão é muito fraca. Os resultados são pífios. Não pode reclamar do presidente da República. Tudo o que pediu, acabou recebendo. Agora insiste em propostas que vão desmontar o pouco que existe de um Estado de bem-estar social no Brasil. Sabiamente o Congresso Nacional rejeitou parcela da reforma da Previdência que era nociva aos mais pobres. O fim do abono do PIS, da aposentadoria rural, do BPC, por exemplo, atingia diretamente os despossuídos e também os pequenos munícipios e o comércio voltado às classes populares. A suposta economia para o Erário significava jogar na miséria milhões de brasileiros. E não podemos esquecer do engodo da capitalização que seria a base da “Nova Previdência.” Guedes e seus sequazes insistiram durante meses apresentando as benesses da capitalização e davam como exemplo positivo o Chile. Sim, o Chile. Diziam que a Previdência chilena era excelente. Que todos lá estavam satisfeitos com a aposentadoria recebida (em caso de dúvida, basta acessar os registros da Comissão especial da Previdência da Câmara dos Deputados). Era engodo. Desejava a capitalização para retirar do Estado a administração dos recursos e transferí-los para os especuladores do sistema financeiro, de onde ele veio, registre-se. O mesmo Guedes – aquele que optou por ser professor no Chile, sob o tacão do ditador Pinochet, numa universidade sob tutela militar – disse com ares de profeta do caos que se a reforma não atingisse 1,3 trilhão de economia para o Tesouro, o Brasil iria quebrar. A economia será de 800 bilhões, cerca de 70% do previsto. O Brasil quebrou?       

    Agora Guedes, para esconder o fracasso da sua gestão, apresentou quase ao final do ano legislativo, um conjunto de projetos de leis e propostas de emendas constitucionais. O pacote não tem um fio condutor. Mas tem um claro objetivo: destruir o Estado edificado pela Constituição de 1988. Aos quatros ventos, o ministro propalou que vai refazer o pacto federativo. Deve desconhecer que o que está propondo deveria necessariamente ser objeto de uma nova assembleia constituinte, algo inimaginável nas atuais circunstâncias. Entre os desvarios, o ministro advoga que a jornada de trabalho dos funcionários públicos seja reduzida, isto em um país onde o Estado presta serviços insuficientes para a maioria da população – os pobres, entenda-se. Ou seja, o que já é precário deve, de acordo com Guedes, piorar. Não satisfeito deseja reduzir o pagamento de salários dos funcionários. Isto mesmo, reduzir. No Executivo, os funcionários não recebem reajuste – reajuste e não aumento de salário – há mais de 4 anos. Sendo assim, os funcionários que, em ternos reais, já ganham menos, vão receber um salário ainda menor. Ah, não terão também mais promoções. Ou seja, só faltam transformá-los na casta dos impuros.

    Paulo Guedes prepara sua saída do governo, preferencialmente no primeiro semestre de 2020. Dirá que o Congresso não deu os instrumentos para enfrentar a crise. Falácia. Faz parte do show. Dele, claro. 

11 comentários sobre ““A crise econômica tem nome: Paulo Guedes.”

  • São suposições sustentadas com maestria, contudo espero que esteja errado, caro professor. Aproveito o espaço para lhe perguntar se ainda há pontos positivos, como os citados no início do ano pelo senhor por meio da metáfora dos tripés, por exemplo. Agradeço! Em nome da admiração e de tudo que aprendi com você. Um abraço!

  • Sensacional!!! Vim para lhe parabenizar pois escuto você todos os dias e sim, Bolsonaro indicou Nestor Forster! Escuto isso por cerca de 5 meses ou mais. Agora fala o número da mega sena por favor!

  • Acredito que só o passar do tempo propiciará condições para entender a apatia catatônica do povo brasileiro, ante a destruição dos índios e suas culturas, o descaso absoluto com o meio ambiente, o rebaixamento da cultura e da educação, o desmantelamento de políticas públicas na área da saúde, entre tantas outras ações destrutivas.
    O que será de nossos filhos e netos?

  • Este governo, prof., reflete o que está nas ruas, a mediocridade, o culto a ignorância, e principalmente a “preguiça” de pensar, mas é como disse, é tudo passageiro.O que eu temo são os próximos 3 anos, “eles”(neo-fascistas, começarem a ocupar espaços e derrubarem tudo que nossa frágil democracia construiu nos últimos anos). Um abraço.

  • Sendo assim, os funcionários que, em ternos reais, já ganham menos, vão receber um salário ainda menor. Ah, não terão também mais promoções

    Não seria a expressão correta: termos reais

  • Lendo todo este conteúdo e já estando em meados de 2020 posso dizer que suas previsões não estariam mais certas do que nunca (infelizmente neste caso).

    Atualmente o dólar acaba de bater outro incrível recorde de 4,40 e ainda tivemos que presenciar o pedido de desculpas do ministro após a sua fala a respeito das empregadas domésticas, lamentável.

  • Esta nova e velha politica faz lembrar a sabia frase do Einstein; ” Só há duas coisas infinitas; o Universo e a estupidez humana. mas no que respeita ao Universo ainda não tenho a certeza absoluta”. E outra frase do pensador Caio Fernando Abreu: “Aguentar a imbecilidade humana todos os dias, é uma tarefa muito dificil. Eu deveria ser remunerado por isso”.

  • Será verdade o que o Ciro Gomes afirmou na sua entrevista recente no Roda Viva, que o Flavio Bolsonaro já conseguiu 9 liminares para impedir que fosse investigado?!!!
    E será também verdade que o Eduardo Bolsonaro não sabe quem foi Henry Kissinger?!!!
    Caramba !!!

  • Paulo Guedes é o “posto ipiranga”, não se esqueçam.
    Reforma trabalhista prommetia diminuir drasticamennte o desemprego, e o que se viu? NADA!!! Reforma da pre.videncia? A mesma coisa, Só blefes e enganação demagógica. O Ciro Gomes tinha razão. E sobre os filhos do Bolsonaro, PF parem de falar neles. Ignorem o que dizem ou fazem

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