Artigo do historiador Marco Antonio Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Mas será o Bolsonaro?”

Marco Antonio Villa
Marco Antonio Villa

Jair Bolsonaro é o maior adversário de Jair Bolsonaro. Nos últimos dias tem se esmerado em criar situações desfavoráveis ao seu próprio governo. Isto em um momento de recesso do Legislativo e do Judiciário, quando poderia aproveitar o vazio para ocupar o espaço político com uma agenda positiva. Contudo, uma sucessão de declarações desastradas e desnecessárias, deu aos seus oponentes amplo material para desgastar o seu governo. Colocando em risco, inclusive, a aprovação em segundo turno da reforma da Previdência pela Câmara, em agosto. E a tramitação inicial da mesma reforma no Senado. Ao invés de colher os louros pela vitória expressiva – a PEC obteve 379 votos – acabou fornecendo munição à oposição. Mesmo sabendo que o que foi aprovado difere em muito em relação ao projeto inicial elaborado pelo ministério da Economia.

É sabido que a popularidade de Bolsonaro no Nordeste é baixa – é a menor de todas as regiões do país. Lá esteve apenas duas vezes em quase sete meses de governo. A última foi ontem, quando esteve em Vitória da Conquista. Deve ser registrado que o Presidente viajou muito pouco pelo país. Mas as sucessivas declarações contra os nordestinos acabaram gerando um movimento de rejeição na região – ampliando ainda mais a sua impopularidade. É sabido que Bolsonaro desconhece a Constituição. Mas suas falas atingiram três artigos da Carta Magna (art. 5, XLII; art. 19, III e art. 37, caput). No café da manhã com os correspondentes estrangeiros disse – e a gravação da EBC não deixa qualquer dúvida – que não enviaria recursos federais ao Maranhão e se referiu aos nordestinos como “paraíbas”, denominação pejorativa utilizada no Rio de Janeiro para denominar os migrantes oriundos do Nordeste (em São Paulo eram chamados de baianos e a expressão era entendida como sinônimo de burro, ignorante, desqualificado). É inaceitável ouvir de um Presidente da República uma afirmação que menospreza brasileiros. O pior foi a tentativa – infrutífera – de tentar justificar o injustificável, sem reconhecer o erro, algo típico da personalidade de Bolsonaro – que imputa sempre aos adversários a razão dos seus erros, forjando um ambiente permanente de conspiração contra ele próprio. O caso limite deste pathos na família é o seu filho Carlos.

Apontou depois a sua metralhadora verbal para o INPE. Acusou o instituto – que tem reconhecimento internacional – de agir como instrumentos de ONGs que teriam como o objetivo primordial desmoralizar o agronegócio. Mais uma vez esteve presente a teoria conspirativa. Foi imediatamente desmentido. Queria censurar a divulgação dos dados sobre o desmatamento da Amazônia. Como se o problema principal fosse a exposição das informações e não o ato em si, ou seja, a ação predatória de setores atrasados do agronegócio. Foi mais um ataque a uma instituição de Estado, verdadeira obsessão presidencial. Antes tinha menosprezado o Itamaraty. E, por via transversa, também atingiu as Forças Armadas, em especial o Exército. Tudo devido à mágoa por ter abandonado a vida militar. Sabia que não poderia galgar postos mais altos que exigiriam muito estudo e suas limitações intelectuais são evidentes. Isto explica os ataques aos generais através do seu preposto, o filho Carlos.

A insanidade governamental foi também dirigida ao FGTS e a multa de 40% no caso de demissão sem justa causa. Imputou o desemprego à multa, numa associação digna de um trapalhão. Insistiu na falácia de que “muitos direitos” significam poucos empregos. A saída, portanto, seria retirar ganhos históricos dos trabalhadores para enfrentar o desemprego. Bobagem, evidentemente. No limite poderá até advogar o fim da Lei Áurea. Afinal, na escravidão havia o pleno emprego. Mais uma vez Bolsonaro revelou seu absoluto desconhecimento no campo econômico – o que, durante a campanha eleitoral, dizia não ser problema pois tinha o “posto Ipiranga” (em tempo: à propósito, onde está Paulo Guedes?). A questão central é a inexistência de um projeto econômico para o país. O governo não sabe o que quer. Vive do improviso, de medidas pontuais e ineficazes para enfrentar a estagnação.

O que fica destas declarações de Jair Bolsonaro – e foram muitas, destaquei somente algumas – é que não está preparado para o exercício da função. Defensores dizem que ele é muito espontâneo, que é o seu estilo. Não. Em sete meses demonstrou a mesma vulgaridade dos tempos de deputado do baixo clero. Só que agora no exercício do principal cargo, o de Presidente da República Federativa do Brasil. E em um momento que o país necessita de uma direção segura, competente, republicana. Estamos vivendo a pior crise da história econômica brasileira. Nada indica que estamos próximo de encontrar uma saída. Pelo contrário, com Bolsonaro no Planalto a crise só tende a se agravar. Aguardemos agosto, mês funesto para nós. Enquanto isso, resta rir e perguntar: sabe a última do Bolsonaro?

2 comentários sobre “Artigo do historiador Marco Antonio Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Mas será o Bolsonaro?”

  • Olá Professor Villa!

    O Presidente da república, se mostra irresponsável, suas atitudes, não apresentam a dignidade do cargo que ocupa!

    Tenho acompanhado suas “lives”. TODAS.

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