Marco Antonio Villa

A eleição para a presidência do Senado foi um marco histórico, uma ruptura com o padrão tradicional — e antirrepublicano — que vigorava há décadas naquela casa. Como reflexo do resultado das urnas em outubro do ano passado, os parlamentares enfrentaram e venceram a velha política. Nas já célebres sessões de 1º e 2 de fevereiro, os senadores recém-eleitos cumpriram o papel exigido pela cidadania de enterrar as antigas práticas, os conchavos e a troca imoral de favores. Enfrentaram os caciques de peito aberto. Falaram o que o povo gostaria de falar. E obrigaram os sonolentos opositores, pouco afeitos ao confronto, a combater abertamente. Acabaram arrastados pelos recém-eleitos. O Senado dos conchavos não existe mais. Foi enterrado juntamente com o nefasto Renan Calheiros, símbolo do que há de pior na política brasileira das últimas décadas.

Na eleição teve de tudo. Até furto de documento público. E ao vivo. É o primeiro caso deste tipo na história do Parlamento desde 1826. A senadora Kátia Abreu simplesmente subtraiu das mãos do presidente da sessão uma pasta contendo o esclarecimento de diversas questões de ordem. Passou horas com a pasta furtada. É caso de cassação. Mas, tudo indica, o furto deverá ser esquecido. Neste terreno — o da desmoralização da instituição — não pode ser esquecido o episódio da manipulação das cédulas. Havia 82 cédulas e 81 votantes. Os apoiadores de Renan tentaram fraudar a eleição. O inepto José Maranhão, que presidiu a sessão, assistiu a tudo sem esboçar nenhuma reação. Pelo contrário, fez questão de também subtrair — os renanzistas têm predileção por esse verbo — duas cédulas que estavam fora dos envelopes. Vale recordar que as outras oitenta foram imediatamente destruídas pelo senador Acir Gurgacz. De dia, Gurgacz dá expediente no Senado, à noite dorme no presídio condenado por crime contra o sistema financeiro — coisas do Brasil.

A derrota de Renan Calheiros foi também a do PT e de Lula, dos inimigos da Lava Jato e dos adversários das reformas. Sem esquecer, entre os perdedores, o presidente do STF Dias Toffoli e sua imoral medida cautelar favorecendo o cangaceiro das Alagoas. Passamos por um momento de transição. A Nova República morreu em outubro. Caminhamos para um novo momento de nossa história. O percurso deverá ser longo. Mas, inegavelmente, a derrota de Renan representa um passo fundamental nesta luta.