Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Bolsonaro e o discurso na ONU”.

                  Marco Antonio Villa

      Jair Bolsonaro teve o desempenho esperando na abertura da Assembleia Geral da ONU. Foi o pior discurso de um presidente brasileiro desde 1982, quando João Figueiredo lá esteve. É conhecida a dificuldade de Bolsonaro para a leitura de um simples documento. Pior ficou quando teve de ler um discurso ao longo de intermináveis 33 minutos. O resultado foi desastroso. Se a imagem do Brasil já era ruim, após o libelo a situação piorou ainda mais. Caminhamos celeremente para ser um Estado pária na comunidade internacional.

     Iniciou sua fala destacando que o Brasil estava próximo ao socialismo. E ele nos salvou. Houve a socialização dos meios de produção, partido único, eleições meramente homologatórias, censura aos meios de comunicação? Os bancos foram estatizados pelo PT? A Constituição de 1988 é socialista? Ao menos poderia indicar um artigo? De que país estava falando?

     Logo resolveu identificar um inimigo do Brasil. Para ele, o muro de Berlim ainda não caiu. O 9 de novembro de 1989 é uma mera ficção. Perdeu vários minutos atacando Cuba, como se a ilha caribenha tivesse algum papel na cena política mundial ou fosse uma perigosa ameaça ao nosso país. Falou até, implicitamente, das ditaduras do Cone Sul, Pior: elogiou os regimes genocidas, algo único na história da ONU, especialmente numa assembleia geral. Assim, violou a nossa Constituição, no mínimo, no artigo 4º, II, que determina às nossas relações internacionais seguir diversos princípios, entre os quais a “prevalência dos direitos humanos.” Em seguida mirou na Venezuela e ironizou a grave crise que atinge o país. Quis politizar – sempre falando em socialismo – a terrível conjuntura que levou à emigração de milhões de venezuelanos, a maioria deles, registre-se, dirigindo-se à Colômbia. Seguindo as determinações do seu guru – um dos autores intelectuais do pronunciamento, juntamente com Steve Bannon – atacou o Foro de São Paulo para assombro dos assistentes, que desconhecem tal organização.

     Depois de vários minutos, a cantilena chegou à Amazônia. Era o que todos esperavam. Os mais otimistas previam que ele poderia construir uma fala propositiva e conciliadora, buscando retomar os contatos, principalmente com a Europa, tendo em vista a importância econômica do continente e a necessidade de ser ratificado o acordo com a União Europeia. Ledo engano. Atacou diversas vezes a França, apresentou dados incorretos sobre a Amazônia, transformou a imprensa em inimiga do Brasil e desenterrou um nacionalismo que se choca frontalmente com as ações do seu governo. Subitamente mirou sua metralhadora para o cacique Raoni. Transformou o célebre líder indígena de 89 anos em agente do colonialismo. E contrapôs uma nativa, representante de uma organização desconhecida, até aquele momento, dos brasileiros. Mais ainda: leu uma patética carta de bolsominions de cocar. Com ar satisfeito proclamou que o monopólio de Raoni tinha acabado. A plateia assistia a tudo atônita. O silêncio – constrangido – tomou conta do salão.

    Insistiu no tema da soberania quanto esta questão não estava sendo questionada. Não custa lembrar que da área da Amazônia, o Brasil ocupa cerca de 60%. Ou seja, sua preservação interessa também a outros países. Não apresentou nenhum programa de conservação da região. Poderia ter recordado os êxitos obtidos desde os anos 1990 e, também, a realização da Rio-92, o maior encontro de chefes de Estado da história, até aquela data. Mas não. Para ele, a história começou a partir de 1º de janeiro de 2019. E mais uma vez, a intolerância cegou Bolsonaro.     

    Subitamente – demonstrando mais uma vez a desconexão intrínseca ao discurso – resolver atacar a própria assembleia geral que teria aplaudido os presidentes anteriores. Outra vez, o espanto tomou conta da plateia. Rapidamente desviou a oração para falar da diminuição dos homicídios e elogiar os policiais. Depois de falar dos milhares de mortos convidou o mundo a visitar o Brasil. Seria cômico se não fosse trágico.

     A geleia geral continuou. Dissertou confusamente sobre as perseguições religiosas. Propôs até um dia internacional sobre o tema. Em seguida atacou o que ele chama de ideologia. Disse que ela se instalou na cultura, educação, imprensa e até na família. Quando parecia que finalmente falaria como Chefe de Estado e não de uma seita, Bolsonaro resolveu lembrar que sofreu um cruel atentado perpetrado por um militante de esquerda – novamente o socialismo esteve presente, além do que, a bem da verdade, Adélio Bispo não participava de nenhuma organização política. Sugeriu até que a ONU combatesse o materialismo!!! E depois de tanto ódio e violência encerrou citando a Bíblia (!?). Assim, aprofundou o isolamento político e diplomático do Brasil. A repercussão na imprensa internacional foi péssima. Os investidores demonstraram preocupação. E teremos, infelizmente, repercussões negativas nas nossas exportações.

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