Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Miguel Arraes: do reformismo ao coronelismo.”

Miguel Arraes: do reformismo ao coronelismo.

Marco Antonio Villa

O Brasil sempre foi seduzido pelos caudilhos. Com uma sociedade civil frágil, um sistema político deficiente, o aparecimento do líder carismático insinuava a possibilidade de queimar etapas e enfrentar os graves (e eternos) problemas nacionais. Ao longo do século XX tivemos diversos destes líderes. Um deles, Miguel Arraes, falecido a 13 de agosto de 2005.

Em Pernambuco passou pela secretaria da Fazenda, foi deputado estadual três vezes e, aos 43 anos, chegou à Prefeitura de Recife. Três anos depois, em 1962, venceu uma das eleições mais disputadas do Brasil, a de governador do seu estado. Próximo dos comunistas, que estavam na ilegalidade, adotou medidas reformistas por simbolizar a esquerda administrativa de então.
 Tentou ter um papel expressivo nas articulações que precederam a queda de João Goulart. Mas não conseguiu ocupar espaço político próprio. As duas candidaturas presidenciais mais fortes para 1965, de Juscelino Kubitschek e de Carlos Lacerda, não o queriam como vice. Goulart e Leonel Brizola, que não poderiam ser candidatos por um impedimento constitucional, não o colocavam como alternativa.

Tudo acabou em 2 de abril, com a destituição de João Goulart e a prisão de Arraes, que, dignamente, se recusou a renunciar pela força das armas ao governo do Estado. Foi levado preso do Palácio das Princesas para Fernando de Noronha. Lá permaneceu detido por um ano. Libertado por um habeas corpus, acabou sendo obrigado a pedir asilo à embaixada da Argélia. Logo depois partiu para o exílio. Permaneceu 14 anos na Argélia, onde se transformou em um próspero empresário, favorecido que foi pelo ditador Houari Boumedienne. Nesses anos teve uma atuação política discreta e tentou manter, mesmo à distância, sua influência em Pernambuco.
De regresso ao Brasil, após a anistia de 1979, encontrou o espaço político pernambucano ocupado pelo MDB: de um lado, os mais conservadores, liderados por Thales Ramalho, de outro, os autênticos, capitaneados por Marcos Freire, Jarbas Vasconcelos e Fernando Lyra. Era como se Ulisses, depois de enfrentar tantos desafios, retornasse a Ítaca e encontrasse Penélope com outro marido. E, pior: feliz.

Buscou articular com a direção nacional do partido e fazer parte do sucedâneo do MDB, o PMDB. Conseguiu ser eleito para o comando nacional, mas não tinha condições de influenciar decisivamente os rumos do partido, tanto que nem sequer conseguiu sair candidato ao governo de Pernambuco, em 1982, perdendo a indicação para o senador Marcos Freire. Arraes não se esforçou em apoiar Freire, que foi derrotado por Marco Maciel.
Eleito deputado federal, aproveitou para ir tecendo as alianças para a eleição de 1986, retomando os contatos com as lideranças do sertão e do agreste e aparando as arestas com os conservadores. A estratégia deu resultado, tanto que venceu as eleições. Vinte e três anos depois, retornou ao Palácio das Princesas. Não era mais o “incendiário” de 1963. E o Brasil também era outro. O reformador foi substituído pelo conciliador, pouco ousado, mais preocupado em ter algum papel na cena política nacional do que na gestão da coisa pública regional. Acabou perdendo a eleição para a prefeitura de Recife, em 1988, para Joaquim Francisco, do PFL – isso quando historicamente a esquerda sempre vencia as eleições na cidade.

Em 1989, tal como nos idos de 64, Arraes influenciar o processo eleitoral, momento crucial da história política nacional. Começou apoiando Ulysses Guimarães, passou depois para o campo de Leonel Brizola e acabou, no segundo turno, apoiando Lula. Perdeu nas três vezes. E voltou a ser derrotado no ano seguinte, quando Joaquim Francisco venceu as eleições para o governo estadual enfrentando o seu candidato, agora já no PSB, pois tinha abandonado o PMDB.
Na mesma eleição, foi eleito deputado federal. Como da vez anterior, Arraes teve uma passagem discreta, mesmo em uma conjuntura tão delicada como a do impeachment de Fernando Collor. Como um político matreiro, porém, no Congresso Nacional dava mais atenção à vida política da província diversamente do que fazia quando governava o Estado.

Novamente, saiu candidato a governador em 1994 e venceu o PFL. Se o primeiro governo foi um marco na história regional, o segundo foi cinzento e o terceiro foi um desastre. Idoso, ultra-centralista, desatualizado em relação ao funcionamento da administração pública, arrastou os quatro anos de governo em meio a greves do funcionalismo público, até mesmo da Polícia Militar, invasões de terras lideradas pelo MST, além de ter sido denunciado no escândalo dos precatórios, que envolveu lideranças conservadoras do Sudeste, como Paulo Maluf.
Dos políticos expressivos do pré-64, Miguel Arraes era o último que se mantinha na vida pública. Contudo conseguiu transferir seu prestígio ao seu sucessor familiar, Eduardo Campos, seguindo os passos da velha política coronelística que tanto combateu no início da carreira política.

Marco Antonio Villa é historiador.

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