Artigo Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas: “Uma viagem para ser esquecida.”

Uma viagem para ser esquecida.

Marco Antonio Villa

Como esperado, os resultados da viagem do Presidente Jair Bolsonaro aos Estados Unidos foram pífios. Uma péssima agenda organizada pelo ministro Ernesto Araújo produziu o pior resultado de um encontro entre os presidentes dos dois países. Todas as questões que eram relevantes para o Brasil foram ignoradas ou postergadas. Em resumo, foi um vexame.

O Brasil foi tratado como um país sem importância. Como uma economia marginal e sem qualquer papel no campo geopolítico – a não ser uma breve referência à Venezuela. Tudo isso apesar de inúmeros gestos de deslumbramento da comitiva em relação aos Estados Unidos. Sem exagero, é uma viagem para ser esquecida. E uma lição para que o Itamaraty tenha um chanceler à altura do Brasil – ao invés de um subalterno que reza de acordo com uma ideologia exótica, produzida pela extrema direita norte americana e que coloca em risco a nossa segurança nacional.

Qual a razão do Presidente apoiar a construção do muro na fronteira com o México? O que o Brasil ganha com isso a não ser a inimizade mexicana? Por que fazer referência à posição dos socialistas franceses em relação aos imigrantes, isto quando quem governa a França são os centristas liderados por Emmanuel Macron? Bolsonaro acha que Macron é socialista? Ou não sabe quem governa a França? Também foi incompreensível a crítica aos democratas americanos. Era uma estratégia para agradar Trump em um ano pré-eleitoral? E o fim dos vistos para os turistas americanos? Foi uma decisão impensada pois não houve – e dificilmente haverá – reciprocidade.

No campo econômico – que seria o mais importante da visita – também nada foi obtido. No máximo foram apresentadas algumas medidas, a maior parte delas inócuas, e que não enfrentaram os contenciosos entre as partes. O apoio à entrada do Brasil na OCDE foi negado. Ou melhor, foi proposto que o nosso país perdesse o status de diferenciado e com tratamento especial da OMC. O ministro Paulo Guedes até disse ao representante americano que ele não era chinês! A alternativa é péssima, à curto prazo, para o Brasil. Não foi dado nenhum passo adiante. Tudo ficou como está. E por que? Porque não foram realizadas reuniões preparatórias para produzir uma agenda positiva. Culpa de quem? De Bolsonaro? Não! O responsável é Ernesto Araújo. Caberia a ele ter construído as condições para uma viagem exitosa, especialmente no campo econômico. Contudo, optou por privilegiar a pauta ideológica determinada pelo Jim Jones da Virgínia. Como explicar o jantar com a extrema-direita americana? O que isso agregou de positivo para as demandas brasileiras? A rejeição dos democratas e parte considerável dos republicanos. O jantar – já chamado de missa negra – queimou pontes importantes que poderiam ter sido estabelecidas com os setores mais dinâmicos do empresariado americano.

As constantes juras de amor aos Estados Unidos – sem que a assessoria fornecesse exemplos históricos ao Presidente – foram patéticas. Pairou no ar um deslumbramento nunca visto em uma viagem oficial àquele país. Tudo indica, que ao lado de Araújo, uma espécie de preposto dos extremistas no Itamaraty, o organizador deste desastre diplomático tenha sido Eduardo Bolsonaro – uma espécie de Marco Aurélio Garcia do atual governo. O rapaz desconhece preceitos básicos da diplomacia. Confundiu ter laços cordiais com os Estados Unidos com uma posição de subserviência. Vale destacar que mesmo durante o domínio petista as relações foram relativamente tranquilas. Não custa recordar o elogio de Obama a Lula – sem entrar no mérito se era correto ou não; demonstrando que não havia nenhuma política antiamericana articulada pelo petismo.

A tentativa de amarrar o Brasil à política americana em relação à Venezuela parece, até o momento, ter sido o melhor momento da visita. A posição brasileira é de independência e não aceita uma saída militar. Isto é devido à ação dos ministros militares. Isto porque Araújo tinha – e tem – uma posição contrária. Quer porque quer seguir o que Washington determinar. Imagine termos um Vietnã na nossa fronteira norte? Provavelmente devido ao ministro Guedes, não ocorreu nenhuma saia justa em relação às nossas relações econômicas com a China, como também era desejo da diplomacia americana.

É conhecida a dificuldade do Presidente com o vocabulário. Não é um bom orador. Deveria ter sido instruído pelo Itamaraty para só se pronunciar por meio de discursos escritos – como ocorre com todos os presidentes de qualquer país – pela assessoria diplomática. Outra vez falhou o ministro Araújo. Era essencial que em todos os pronunciamentos oficiais fossem destacados os pontos essenciais da visita, sempre enfatizando as nossas demandas econômicas. Porém, não foi o que ocorreu.
Contudo, além dos problemas citados, o maior deles foi a ausência de Bolsonaro do Brasil no momento mais importante do seu quadriênio presidencial; o início da tramitação da reforma da Previdência.