Bolsonaro: chegou a hora da ação.

Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

Bolsonaro: chegou a hora da ação.

  Marco Antonio Villa

Começou o governo Bolsonaro. Agora o Presidente tem a responsabilidade de governar o Brasil. Neste primeiro mês não terá a vigilância do Congresso Nacional, que só reabre a 1º de fevereiro. Deve aproveitar para que todos os ministérios apresentem seus planos e as primeiras ações práticas. A profunda reorganização ministerial com a fusão e eliminação de diversas pastas deve cobrar o seu preço inicial. Por outro lado, o clima de férias e de otimismo que marca o mês de janeiro possibilitará ao governo um momento – ainda que breve – de compreensão para eventuais erros.

O governo deverá ter dificuldade para aprovar as medidas mais sensíveis, que considera indispensáveis para o rearranjo da economia. Tudo indica que terá pouca influência na eleição das mesas diretoras da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. A renovação eleitoral, além da falta duma eficaz articulação do Executivo com o Legislativo, aponta para a reeleição de Rodrigo Maia sem que dependa dos votos do partido do Presidente da República. É um mal sinal – uma demonstração de fraqueza – que pode atingir os projetos cruciais do governo. Não é um bom sinal uma derrota neste momento, mesmo que Maia não esteja catalogado entre os adversários do Presidente. Mas a desarticulação do Partido Social Liberal e a pobreza política dos seus quadros mais expressivos, demonstram a necessidade de uma ação profissional por parte dos articuladores do governo. Não é possível fazer política por meio dos filhos do primeiro mandatário ou de parlamentares sem qualquer experiência legislativa, a ampla maioria deles eleita graças ao apoio eleitoral à Bolsonaro.

O período de lua de mel que todo Presidente da República usufrui no início do seu mandato tem de ser bem aproveitado. O maior desafio será no campo econômico. O novo ministério da Economia tem de rapidamente demonstrar eficácia. Não será fácil. São muitas secretarias e um conjunto fabuloso de tarefas sob sua responsabilidade. A imprensa, inicialmente, vai apontar possíveis deslizes nas propostas apresentadas, que são ousadas e de complexa aplicação. Redefinir o papel do Estado na economia, isto depois de quase um século de intervencionismo, vai exigir uma engenharia política e econômica que nenhum governo precisou nos últimos 30 anos. E isto pode cobrar alto custo político pois interesses enraizados na estrutura estatal devem responder às medidas adotadas pela nova gestão.

Vale recordar que a presidência Fernando Collor ao enfrentar os poderosos cartéis e privilégios logo no início do seu governo, em março de 1990, acabou produzindo uma tempestade que redundou na crise de 1992, na abertura do processo de impeachment e na posterior renúncia em dezembro do mesmo ano. É um terreno perigoso e que só pode ser ultrapassado com muita habilidade gerencial e principalmente muita habilidade política. Não será na base do grito ou de ameaças que os privilégios serão eliminados, por mais injustos que sejam.

O conjunto de forças empresariais que apoiaram o candidato Bolsonaro não deverá ser o mesmo que dará sustentação ao governo. Especialmente se as medidas modernizadoras anunciadas forem colocadas em prática. Volto ao caso Fernando Collor, que é ilustrativo. No campo econômico as medidas adotadas nos primeiros dias da sua gestão foram uma verdadeira revolução e atingiram setores empresariais que apoiaram o então candidato que também enfrentou – e venceu – o Partido dos Trabalhadores.

Logo o empresariado passou para a oposição e minou as ações governamentais. Deve ser lembrado que a conjuntura político-econômica era diversa, o país vivia uma inflação anual de quatro dígitos, a legenda do Presidente – o Partido da Reconstrução Nacional – era mais frágil, porém o modus operandi se for mesmo poderá levar a um impasse político ainda no primeiro semestre quando o governo pretende aprovar as medidas que considera essenciais para retomar o crescimento econômico sob novas bases.

Daí a importância das eleições das mesas diretoras da Câmara e do Senado. Se na Câmara o cenário parece, neste momento, já definido, no Senado o cenário é mais complexo. O retorno de Renan Calheiros à Presidência da Casa será uma grande derrota para o governo. Muito maior do que a permanência de Maia na Presidência da Câmara. Renan vai fazer o jogo do PT e tentar, por todos os meios, sabotar o governo. Vai exigir – e cobrar – cargos e favores. Pode paralisar a ação governamental com terríveis reflexos no campo das expectativas econômicas. Encontrar um candidato para enfrentar e derrotar Renan Calheiros é tarefa fundamental para Bolsonaro. Mas, até o momento, o Presidente dá pouca importância ao fato.

O clima de festa da posse acabou. Os deslizes habituais em tais cerimônias vão para o folclore político. O que importa agora é a ação. É o fazer. E de forma diferente, como foi prometido na campanha. O desafio está posto. A pergunta que fica é se Jair Bolsonaro está à altura da complexa conjuntura histórica que vivemos.

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