Bolsonaro inicia formação do governo.

Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas.

“Bolsonaro inicia formação do governo.”

Marco Antonio Villa

O novo governo começa a ser constituído. Este é o momento em que as forças políticas que venceram a eleição iniciam a disputa por posições no interior do aparelho de Estado. A presença de militares não deve ser compreendida como uma participação da instituição nos negócios públicos, na gestão governamental. Se isto ocorrer não será um bom sinal. Tanto para o presidente como para as Forças Armadas. Vivandeiras rondando os quartéis nunca foram boas conselheiras. Seria um grande salto para trás.

Nos últimos 30 anos, as Forças Armadas tiveram um papel exemplar. Atuaram no Brasil e no exterior sempre sob o manto constitucional e à serviço dos interesses nacionais. No caso brasileiro, diferentemente da América Latina de colonização espanhola, o militarismo político nunca foi um elemento determinante. Em 1889 a ação castrense foi de curto prazo. Mesmo nos governos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, a hegemonia civil foi patente e a transição para os republicanos históricos ocorreu a partir de 1894. A Revolução de 1930 teve também na liderança civil o seu principal esteio. A exceção foi 1964 mais especialmente a partir do AI-5, em 1968. Neste caso houve uma inflexão muito acentuado. Sendo assim, numa conjuntura radicalmente distinta, nada indica que a participação ministerial de vários generais da reserva no governo Bolsonaro deva romper esta tendência histórica. As Forças Armadas não serão responsáveis nem pelo êxito, nem pelo fracasso de uma gestão oriunda das urnas.

Um fator que poderá causar sérios transtornos ao governo será a ação dos filhos do Presidente. Ter três filhos na política, neste momento, é um problema. Qualquer declaração de um deles será interpretada como uma fala de Bolsonaro. Como, normalmente, dizem impropriedades, o ônus será do Presidente. O maior perigo vem de São Paulo, do deputado Eduardo Bolsonaro. Este é uma usina permanente de produção de problemas. Calado é um poeta, diria Romário. Um dia propôs fechar o Supremo Tribunal Federal, noutro a prisão de cem mil opositores. Imagine-se um gigante da política mas não passa de um piralho, sem vida própria. Vai, com certeza, ser um elemento de instabilidade. O país vai viver um momento novo, o de uma família presidencial, quase uma família real. As revistas de fofocas vão ter um amplo material a ser explorado, mas o Palácio do Planalto, registre-se, não é o de Buckingham.

As relações com o Congresso vão ser tensas. Apesar da renovação produzida pelas urnas, a velha forma de fazer política tende a prevalecer. Ao menos até ser derrotada pela pressão popular, caso ocorra. Não será tarefa fácil aprovar as emendas constitucionais que exigem quorum qualificado. E mesmo projetos de lei. A necessidade de negociação vai se impor. O desafio será a forma estabelecida em eventuais acordos entre o Executivo e o Legislativo. O eleitorado já deu o seu recado em 7 de outubro. Voltar ao “é dando que se recebe” é temerário, no mínimo. Contudo, o governo não poderá ficar imobilizado. Uma saída inicial será a utilização das medidas provisórias. Outra, caso ocorra um impasse logo no início da gestão, será a comunicação direta com os cidadãos. E como isso será entendido? Bonapartismo? Respeito à vontade popular? Nova forma de fazer política?

A escolha de Sérgio Moro foi um golpe de mestre. O juiz se transformou na grande figura do século XXI brasileiro. É inegável sua competência e integridade. Agiu como um magistrado mas para a população foi mais um justiceiro, como nos antigos filmes de faroeste. Em um país que os poderosos sempre zombaram da justiça, a ação de Moro foi um ponto de profunda mudança, de inflexão radical. Ao ocupar a pasta da Justiça – com poderes ampliados – terá condições de construir um arcabouço legal para combater a corrupção e o crime organizado. Tem experiência, conhecimento e, de acordo com declarações do Presidente eleito, agirá com carta branca. Isso é essencial. Sua designação foi um claro sinal de que o novo governo pretende efetivamente romper com a velha política. Isso terá necessariamente um custo na relação com o Congresso e com poderosos interesses econômicos incrustados na máquina de Estado. Um dos primeiros testes de Moro à frente da pasta da Justiça será quando ocorrer uma acusação de corrupção envolvendo um membro do governo. O que fará? E se o acusado for da entourage de Bolsonaro?

A designação de Paulo Guedes para o Ministério da Economia – com poderes e áreas ampliadas – pode ser uma boa medida. É alguém do mercado mas que ainda não conhece os meandros da administração pública. Será um enorme desafio. Mais ainda pela ampliação das suas responsabilidades que pode, se não for bem planejado, sobrecarregar o ministro e paralisar o cotidiano administrativo. Desta pasta depende em grande parte o sucesso do governo. A sintonia entre o ministro e o presidente será de extrema importância – e, como é hábito na política nacional, não faltaram motivos para ruído.

Marco Antonio Villa é historiador.

13 comentários sobre “Bolsonaro inicia formação do governo.

  • A escolha do juiz Sérgio Moro para ser o ministro da Justiça_A melhor escolha até a presente data.Quanto ao ministro da Casa Civil-Onix Lorenzoni.Com base nas acusações sobre o famigerado Caixa 2.Poderá trazer complicações para o governo Bolsonaro.

  • Ao ilustre Prof. Villa. O povo que pensa e produtivo, esta esperando que o Brasil se torne uma grande Nacao, como diz Bolsonaro. Agora temos que fazer a nossa parte. Parabéns pelos seus comentarios, sempre lúcidos.

  • Um comentarista admirável e que traduz o sentimento popular sobre tudo que acontece no poder, inclusive as podridões.

  • Falando de formação do governo -Muitos opositores do presidente Jair Bolsonaro gostaria que o mesmo escolhesse um CUBANO PARA MINISTRO DA SAÚDE!.Os remendos para os problemas sociais(Citados como solução)servem de matéria critíca!.

  • Para os devotos do Lula ,o presidente Bolsonaro deveria nomear um CUBANO PARA MINISTRO DA SAÚDE!.Os remendos sociais petistas apresentados como soluções,servem de base para critícas ao governo do Jair.

  • Peço a permissão do distinto professor,afim de enviar uma sugestão ao presidente Jair Bolsonaro:Solicitar aos médicos das Forças Armadas para substituir de forma emergêncial as vagas do médicos do projeto Mais Médicos.

  • Vai uma sugestão para o governo do presidente Jair Bolsonaro:estudar a possibilidade de enviar médicos das Forças Armadas afim de ocupar de forma temporária e emergêncial as vagas no caso ‘Mais Médicos”.

  • Vejo em um governo que tem um super ministro, motivo de preocupação,sobretudo na condução da pasta. Desejo sorte ao Moro.

Deixe uma resposta

You have to agree to the comment policy.