Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:Como deverá ser um governo Bolsonaro?


O cenário eleitoral para a Presidência da República parece definido. Agora é necessário lançar os olhos para a composição do governo. É preocupante a participação de membros das Forças Armadas na campanha e na organização da futura presidência Bolsonaro. São oficiais da reserva, registre-se. Porém, fica implícito uma ação das Forças Armadas, agora de forma distinta do que em outros momentos da história republicana. Não é saudável a relação das Forças Armadas como parceiras atuantes em nenhum governo. Nunca devemos nos esquecer que estamos falando de uma instituição permanente de Estado. A ação politica das Forças Armadas é ruim para ambas as partes. São espaços distintos e que contam com especificidades que não se coadunam. Basta imaginar um general no comando de um ministério tendo de responder a eventuais críticas ou à acusação de um suposto desvio ou má aplicação de verba ministerial – e tendo de comparecer ao Congresso Nacional para ter de dar explicações. Como agiria alguém treinado para comandar e obedecer em um ambiente de questionamento permanente? Na política não há hierarquia e nem regulamento disciplinar. O mundo em que foram formados os oficiais não é o mesmo dos políticos. A possibilidade desta relação tensionar o governo – e logo no seu início – é muito grande. É um terreno pantanoso, fadado às armadilhas. Não causará estranheza se ocorrer uma nova questão militar, um pouco distinta daquela dos anos 1880.

Outro fator de tensão deverá ser a eleição para as mesas diretoras da Câmara e do Senado. Nada indica que os velhos políticos vão garantir a presidência das duas Casas. Rodrigo Maia, por exemplo, dificilmente será reeleito à Presidência da Câmara. E a possibilidade de Renan Calheiros presidir o Senado é, no mínimo, remotíssima. O cenário é de renovação total. Mas os novos deputados e senadores também não deverão ocupar nenhuma das presidências. A tendência é de que um político mais antigo – mas não identificado com práticas antirrepublicanas – assuma a direção tanto da Câmara, como do Senado. E alguns nomes já despontam, como o do senador eleito por Pernambuco. Jarbas Vasconcelos.

O Congresso Nacional deverá ser um terreno muito difícil de ser percorrido. A renovação deverá criar novas formas de negociação. As comissões serão preenchidas por parlamentares – alguns deles – inexperientes no trâmite das matérias. Também haverá dificuldade para estabelecer negociação de projeto de interesse do governo. As velhas lideranças desapareceram no dia 7 de outubro. Assim, vai ser necessário descobrir quais são os novos interlocutores – e este processo não será imediato. O problema é que o governo deverá enviar um pacote de medidas que devem exigir aprovação imediata. Isso sem falar nas PECs, que, como é sabido, exige um quorum de 3/5 dos votos. Além do que, muitos parlamentares não sabem as reais atribuições do Parlamento. Desconhecem o ritmo congressual e a necessidade do convencimento dos colegas para obter as aprovação dos seus projetos. Para o governo a situação é ainda mais preocupante. Precisará formar um bloco coeso para garantir no primeiro semestre de 2019 a aprovação do que considera fundamental para demarcar o nascimento de um novo tempo, especialmente no campo econômico.

O namoro com o “mercado” deverá ser intenso nos dois últimos meses de 2018. A provável vitória eleitoral de 28 de outubro vai estabelecer um clima de paz e amor. A cotação do dólar vai cair e os índices da bolsa devem subir. Haverá oscilações quando da formação do ministério. Mas não deverá ocorrer nenhuma surpresa nos nomes para a área econômica. Uma dificuldade ficará na extensão do processo de privatização. É provável que, até para sinalizar os novos tempos, o governo resolva privatizar algumas dezenas de estatais, as consideradas não-estratégicas, com um baixo valor de mercado. Em um segundo momento poderá chegar a vez de algumas subsidiárias da Petrobras. E as prováveis desregulamentações vão deixar os investidores satisfeitos. O fulcro da questão será a aprovação das medidas que necessitam da chancela do Congresso Nacional. Aí não será tarefa fácil e a política – a negociação – terá de ser exercida com habilidade. A pergunta que fica é se haverá uma liderança de governo apta para estas tarefas.

A reorganização ministerial também trará transtornos ao novo governo. Reduzir pastas e reestruturar a máquina estatal não é tarefa fácil. Eliminar a pasta o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, é um grave erro. Vai gerar um grande movimento contrário à presidência antes dela, inclusive, se iniciar – e com péssima repercussão internacional. Que é necessário diminuir o número de ministérios, poucos discordam. Mais quais? E por que? Sem esquecer que o Congresso está de olho em cargos de chefia e que sem o seu apoio o governo ficará imobilizado. E não foi comentado nada sobre a oposição do PT, divergências no PSL, “caneladas” entre os ministros, etc, etc.

Marco Antonio Villa é historiador.

5 comentários sobre “Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:Como deverá ser um governo Bolsonaro?

  • O Capitão adotou a vida civil aos 40 anos e descobriu os mimos de uma carreira política. Incentivou sua prole a fazer o mesmo, em vez do ostracismo de uma carreira militar. O risco agora é o deslumbramento familiar com aviões da FAB e um general que presta continência pra lhe chamar de chefe.

  • Em alguns ministérios seria importante a presença de militares, como minas e energia, planejamento e infraestrutura, ciência e tecnologia, eles têm uma visão muito mais objetiva e pragmática, e quase nada política, na forma de encarar problemas e apresentar soluções.

  • Com base no Plano de Governo registrado no TSE (se for cumprido a risca) ,podemos afirmar que será normal,dentro da legalidade -Sem novidades.

  • Não entendi:” Na política não há hierarquia e nem regulamento disciplinar..”!O que existe então,anarquia().

  • Fiquemos de olhos bem abertos, pois as velhas “raposas” de sempre, as que sobreviveram, tentarão cooptar os “calouros”, pois é grande a tentação…

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