Governo Bolsonaro: três acertos e um grande problema.

Artigo do historiador Marco Antonio Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

Governo Bolsonaro: três acertos e um grande problema.

A Presidência Bolsonaro teve início numa conjuntura política bastante favorável. O recesso do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal – sempre causadores de problemas – ajudou. Por outro lado, a derrota eleitoral do PT e a inexistência de uma oposição de esquerda deixou o caminho aberto para o governo. O mercado vem sinalizando que acredita nas promessas oficiais e tem dado resposta nas altas da bolsa e na queda do dólar. Externamente, as notícias também são favoráveis. Davos está recebendo bem a delegação brasileira. Há também uma expectativa de que as reformas são indispensáveis, especialmente a da Previdência. Como reza o ditado popular, água mole em pedra dura, tanto dá até que fura. Hoje a maioria da população aceita a reforma. A questão que se coloca, neste momento, é quais os direitos – ou se preferirem, os privilégios – serão suprimidos. O que é líquido e certo é que a Previdência não fica em pé sem uma alteração nas suas regras.

Também deve ser destacado que os setores mais sensíveis do governo vão bem. O ministério da Economia, apesar do seu gigantismo, tem, nos primeiros dias, conseguido uma unidade de trabalho elogiável. Não custa recordar que foi edificado recentemente com a fusão de três ministérios, além da interligação com bancos e empresas estatais, como o Banco do Brasil e a Petrobras, entre outras. Vai ter a primeira prova de fogo com a elaboração final da reforma da Previdência. Depois com um conjunto de medidas que necessitarão da aprovação congressual. A sintonia fina com o Congresso será essencial. Sem negociação – republicana, entenda-se – nada seguirá em frente. Além do que, o governo tem quatro anos de árduo trabalho e que necessitará do apoio parlamentar.

A área militar vai bem. Hoje não é apenas o Ministério da Defesa. Estima-se em mais de quarenta militares de alta parente ocupando chefias de ministérios e importantes departamentos, autarquias e empresas estatais. Não tem ocorrido conflitos. Trabalha-se em silêncio. E bem. Não se sabe o que poderá ocorrer quando em votações importantes o governo necessitar entregar cargos de chefia em áreas sensíveis, por exemplo, da infraestrutura. Se isto correr haverá a contaminação de um corpo sadio pelo vírus da corrupção e com efeitos já tão conhecido de todos nós. E no campo político seria uma guinada radical oposta à manifestação dos eleitores na eleição de outubro. Sem revolucionar rapidamente a infraestrutura, o país não tem condições de retomar o desenvolvimento no ritmo que a economia tem condições de crescer. Não será tarefa fácil. Basta observar os portos brasileiros (Santos, em especial) que necessitam de urgente modernização – sem esquecer, óbvio, de moralizar suas gestões. O mesmo se aplica as ferrovias, as estradas de rodagem e as hidrovias.

O ícone maior do governo é o ministro Sérgio Moro. Símbolo da luta contra a corrupção, é conhecido internacionalmente. Sinaliza para o investidor estrangeiro o compromisso com a ética e o respeito à coisa pública – e em Davos já está demonstrando quão importante é a sua presença. Mas, para efeito interno, tê-lo na pasta da Justiça e Segurança Pública significa o comprometimento no enfrentamento da corrupção, do crime organizado e da violência. Aguardamos as medidas que serão enviadas ao Congresso Nacional que devem alterar a legislação penal com o endurecimento no cumprimento das penas e criar condições efetivas para o combate à corrupção. Além do que se espera uma articulação de fato entre o ministério e as unidades federativas no enfrentamento do crime organizado.

Mesmo com estes acertos, o que tem predominado no noticiário são as ações dos filhos do Presidente, como se vivêssemos numa monarquia nos trópicos. Dos três, o que tem, no momento, criado mais problemas é justamente o mais cordato, Flávio Bolsonaro. Senador eleito pelo Rio de Janeiro tem se mostrado pouco eficiente nas respostas às graves acusações que pesam sobre o seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Inicialmente diminuiu a importância das suspeitas que pesavam sobre seu ex-assessor, Fabrício Queiroz. A cada dia que passa, Queiroz tem mais o que explicar – mas se mantém publicamente em silêncio. Paradoxalmente, Flávio ficou satisfeito com as justificativas dadas a ele, em caráter reservado, pelo amigo. Isto só agravou o quadro de que no seu gabinete na Alerj, a “rachadinha” era utilizada para subtrair parte da remuneração dos assessores, tradição naquela Casa. As transações financeiras e imobiliárias de Flávio também são suspeitas e agora surge mais uma denúncia de que ele empregou representantes das milícias que aterrorizam o Rio de Janeiro. Sem esquecer os assessores fantasmas.
Evidentemente que há exploração política destas acusações. Porém, se não forem rapidamente esclarecidas vão atingir o governo em momento crucial, o da aprovação da reforma da Previdência.

2 comentários sobre “Governo Bolsonaro: três acertos e um grande problema.

  • O maior obstáculo está em sintonizar com a maioria dos parlamentares no tocante a principal Reforma do momento – A previdenciária.

  • Villa, assim com eu, gostaria que os políticos prestassem atenção às suas análises. Elas são sempre muito valiosas!

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