Governo Bolsonaro.Qual governo?

Artigo do historiador Marco Antonio Villa

no Correio Brasiliense e Estado de Minas.

               Marco Antonio Villa  

      A Presidência Jair Bolsonaro é marcada pelo caos.

São desconhecidos os objetivos que o governo pretende atingir. Diariamente o presidente instiga ao ódio. Ataca seus adversários com prazer mórbido. Algumas vezes, o alvo acaba sendo um aliado eleitoral. O importante para ele é sempre buscar o confronto. Viveu disso durante trinta anos de vida legislativa. Gostou de desempenhar este papel. Mais que isso, adaptou-se a este formato de fazer política, ou melhor, de não fazer política. 

     Com o aumento da impopularidade – e todas as pesquisas detectam esta tendência – Bolsonaro deverá intensificar os ataques à imprensa. E contará com o apoio das milícias digitais. Vai radicalizar, cada vez mais, o discurso. Não perderá oportunidade para atacar os valores democráticos e seus adversários políticos. Se necessário irá utilizar os instrumentos de Estado para coagir seus opositores – já o fez, de forma embrionária, revelando linha de crédito para a compra de pequenos aviões da Embraer. Para ele, que não compreende as atribuições de chefe do Executivo federal, tudo é permitido. Supõe que o cargo permite que aja sem freios. Ignora os limites legais. Crê que os mecanismos jurídicos são instrumentos para limitar sua autoridade. Enxerga o Estado democrático de Direito como inimigo que deve ser, inicialmente, desmoralizado. Para, posteriormente, ser eliminado. De acordo com sua reles visão autoritária, qualquer manifestação de oposição aos seus desejos é entendida como uma afronta pessoal. 

     O isolamento político deverá conduzí-lo para os braços dos seus mais radicais apoiadores. Irá falar cada vez mais – ocupando espaço diariamente na imprensa até para demonstrar que mantém a iniciativa política – para cada vez menos adeptos. Perdendo suas bases eleitorais de apoio – e este processo já se iniciou – vai jogar o que resta do seu prestígio em ações que aprofundem o desmantelamento das instituições democráticas. Fará de tudo para identificar no Estado democrático de Direito as razões do fracasso do seu governo. Vai insistir na tese de que os eleitores deram a ele um mandato e a “velha política” está sabotando a vontade popular.

     Jair Bolsonaro foi paulatinamente construindo um mundo paralelo recheado de fake news. Lá se sente confortável. As teorias conspirativas e o senso comum se transformaram, para ele, em verdadeiras enciclopédias. No episódio das queimadas na Amazônia agiu vocalizando “explicações” com base em um saber pseudo-científico. Foi motivo de chacota mundial. Reagiu atacando com linguagem chula autoridades europeias.

     Em apenas oito meses conseguiu desmontar áreas do aparelho de Estado que foram edificadas durante décadas. No Itamaraty, por exemplo, instituiu uma verdadeira caça às bruxas. Todos aqueles que não aceitaram o jugo de uma política externa à serviço dos interesses norteamericanos foram isolados. A pirâmide hierárquica foi invertida. A Casa de Rio Branco foi tomada por aventureiros. Perdeu-se de vista os objetivos voltados à defesa de nossa soberania e à independência nacional. A todo custo o governo busca uma aliança de subserviência frente aos Estados Unidos. É caso único na nossa história e que terá um enorme custo político para o Brasil.

     A gestão econômica é um fracasso. O país está estagnado. Pior, está sem nenhuma perspectiva real de retomada do crescimento econômico. Desinteressado – e desconhecendo – os meandros da administração pública, Bolsonaro não acompanha o dia-a-dia do ministério da Economia. No início do governo ainda tentou aparentar interesse na PEC da Previdência. Nas últimas semanas esqueceu de tocar no que considerava essencial para o êxito da sua gestão. Falou de tudo, um pouco, menos da reforma da Previdência. De outros temas econômicos permaneceu na mais absoluta ignorância. Se for perguntado sobre cinco projetos que estão sendo gestados no ministério sob a responsabilidade de Paulo Guedes, certamente não saberá dar a resposta. 

     Visando ocultar sua inépcia, Bolsonaro dedicou-se a espalhar declarações polêmicas sem nenhuma relação direta com as ações de Estado.  Transformou a vulgaridade, a linguagem grosseira, em símbolo de uma presidência pouco afeita ao decoro, à responsabilidade governamental e ao árduo trabalho de administrar um país que, com todos os problemas, ainda é a oitava economia do mundo. A cada entrevista/discurso revelou seu despreparo para o exercício do mais alto cargo da república.

     Dada a gravidade da crise econômica os setores responsáveis da política e do mundo empresarial vão ter de se manifestar sob pena do país adentrar a uma crise social de enormes proporções e de consequências imprevisíveis. A omissão vai cobrar um alto preço. Não suportaremos mais quarenta meses de caos administrativo. Há instrumentos constitucionais para enfrentar a anarquia governamental. Quanto mais cedo forem utilizados, melhor para o Brasil.   

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