Artigo Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

“Lula foi o grande derrotado.”

Marco Antonio Villa

O grande derrotado da eleição presidencial foi o presidiário Luís Inácio Lula da Silva. Durante meses a central de factoides do PT produziu versões que davam ao criminoso de São Bernardo do Campo um poder político quase que sobrenatural. Ele seria eleito presidente da República até sem fazer campanha. Tudo devido ao apoio popular e à memória dos êxitos dos seus oito anos de governo. Era considerado o maior líder popular da História do Brasil. Muitos, inclusive, o colocavam como uma das últimas grandes lideranças do mundo contemporâneo. Era imbatível.

Quando foi condenado à regime fechado, analistas petistas espalharam a versão de que a cadeia potencializaria ainda mais a sua candidatura. Isto porque o povo brasileiro teria uma tendência, segundo eles, de se identificar com mártires – e Lula seria um deles. Os factoides continuaram sendo produzidos à exaustão. Pouco depois, quando o Tribunal Superior Eleitoral determinou que um condenado em segunda instância não poderia ser candidato, como reza a lei da Ficha Limpa, os militantes do Ministério da Verdade petista – como no livro “1984” de George Orwell – estabeleceram que o indicado seria facilmente eleito, independentemente de quem fosse o escolhido pelo presidiário. Tudo alicerçado nas pesquisas de intenção de voto que davam a Lula a liderança da corrida presidencial. A dúvida era quem iria disputar o segundo turno com o poste petista. Isto se tivesse segundo turno.

Quando o processo eleitoral teve início viu-se que as projeções petistas eram um embuste. Havia um descompasso com a realidade. Era óbvio para um observador isento mas não para os ideólogos dos factoides. O lançamento de Fernando Haddad para substituir Lula já era um sinal de derrota. Tinha sido humilhado nas urnas a menos de dois anos em São Paulo. Enfrentou um neófito na política – João Doria – e perdeu a reeleição no primeiro turno. E mais, não venceu em nenhuma das 38 zonas eleitorais da capital paulista. Perdeu nas regiões ricas, entre a classe média e na periferia. Mas era um nome de confiança do Lula justamente pela tibieza eleitoral. Seria mais fácil controlá-lo em toda a campanha. E, neste caso, Lula estava certo. Haddad foi um dócil instrumento do presidiário. Fez e falou tudo o que ele quis. Obedeceu passivamente. Não questionou nenhuma ordem. Mais que fiel foi um serviçal. Como o agregado José Dias, “sabia opinar obedecendo.” Nunca foi um bom orador, sem carisma e sem liderança própria. Passou pela campanha sem deixar saudades. Afinal, todas as lideranças petistas que buscaram alguma forma de independência no partido acabaram isoladas por Lula. Uns optaram pela saída do PT. O que restou? Os subservientes à sua vontade, à sua tirania. Os que sempre disseram sim.

Para manter de pé a candidatura Haddad era essencial, indispensável, isolar em um gueto, Ciro Gomes. E o trabalho foi feito, muito bem feito, com o auxílio canino do Partido Socialista. Este chegou a impedir uma candidatura ao governo com boas perspectivas eleitorais em Minas Gerais. Em troca recebeu do presidiário o caminho aberto à reeleição ao Palácio do Campo das Princesas, em Pernambuco. E o eleitorado mineiro e pernambucano, foi ouvido? E as lideranças regionais? Lula, como de hábito, passou por cima de tudo e de todos. Manteve seu velho hábito: ter como princípio não ter princípio. Com requintes de crueldade, ainda insinuou – via seu preposto, Jaques Wagner – que poderia apoiar Ciro para a Presidência da República. Pouco depois plantou a notícia de que ele poderia ser o vice na sua chapa. Não queria nem uma coisa, nem outra. Era puro jogo de cena. Coisa de sindicalista malandro, de Pedro Malasartes do ABC paulista. Inviabilizou uma política de aliança por parte de Ciro Gomes. Restou a este tentar – e fracassar – uma guinada à direita em busca do Centrão. E realizar uma solitária campanha.

Todas as manobras de Lula não conseguiram levar Haddad à liderança. Mas obteve êxito chegando ao segundo turno. Agora era necessário um último golpe: transformar seu marionete em símbolo da civilização contra a barbárie, em representante da democracia, em defensor da Constituição, em símbolo da moralidade republicana. Nesta ópera bufa seus adversários – alguns criticados e desqualificados durante duas décadas, como Fernando Henrique Cardoso – deveriam se curvar à sua liderança, ao seu comando. Tudo isso sem que o partido fizesse uma autocrítica, reconhecesse os atos de corrupção, as condenações do mensalão e do petrolão. Nada, absolutamente nada. Era um imperativo moral apoiar Haddad.

Desta vez, Lula fracassou. É o caminho do fim. O Brasil está se libertando do presidiário. Isto não tem preço. Significa que a República está renascendo. Que os valores construídos ao longo da nossa história possam novamente nortear a disputa política. Virar esta página é fundamental. E o Brasil o fez no dia 28 de outubro de 2018.

Marco Antonio Villa é historiador.