Michel Temer volta à obscuridade.

Artigo do Prof. Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:”Michel Temer volta à obscuridade.”

Marco Antonio Villa

Quase que em silêncio, Michel Temer deixa a Presidência da República. Chegou a ela por acaso. Ninguém imaginava, em 2014, quando da reeleição ao cargo, que Temer assumiria o posto de Dilma Rousseff. Até então tinha uma carreira política de pouco brilho. Em São Paulo sempre teve dificuldade para se eleger deputado, isto desde a primeira vez, em 1986. Chegou à Assembleia Nacional Constituinte como suplente. Teve papel obscuro. Também no Executivo não tinha deixado marcas expressivas nas duas passagens pela Secretaria de Segurança Pública estadual.

Em Brasília foi considerado um bom articulador na Câmara dos Deputados. Dirigiu a Casa várias vezes. Tinha prestígio no baixo clero, o que facilitou suas contínuas eleições para dirigir a mesa diretora. Pouco participou da discussão dos grandes problemas nacionais. No campo da produção legislativa não deixou rastros. Porém evitou criar atritos com os colegas das mais diferentes correntes políticas. Manteve-se no antigo PMDB. Com o tempo passou a ter influência nos rumos do partido. Especialmente no momento que a legenda foi dominada por políticos fisiológicos e antirrepublicanos.

Em São Paulo ficou mais conhecido pela influência no porto de Santos. Saía governo, entrava governo, e Temer continuava sendo citado como uma espécie de coronel do porto. Dizia-se – como piada – que tudo tinha começado quando da chegada de Martim Afonso de Souza, em 1532, que já teria perguntado a João Ramalho como andava Temer.
Sem voo próprio tentou chegar à prefeitura de São Paulo como candidato a vice-prefeito de Luiza Erundina. Não conseguiu. A chapa foi massacrada nas urnas. E sua participação no pleito resumiu-se à cessão do tempo de televisão para a titular da chapa. Passou a campanha em silêncio. Era desconhecido do eleitorado da maior cidade do Brasil. Seus votos vinham do interior.

Em 2010, numa articulação de Lula para atrair o PMDB para a chapa do PT e isolando o PSDB, Michel Temer foi indicado para ser vice-presidente de Dilma Rousseff. Foi omisso na eleição. Pouco falou. Não teve participação nos debates. Mal aparecia nos cartazes e santinhos. Na propaganda televisiva era figura decorativa. Entrou mudo e saiu calado. Com a vitória da petista chegou onde nunca imaginou que poderia chegar: à Vice-Presidência da República. Era tão irrelevante que só apareceu no noticiário, no dia da posse, a 1º de janeiro de 2011, graças à beleza da sua esposa. O país comentou durante dias o fato. E Temer? Deste pouco se falou, continuou a mesma figura cinzenta de sempre.

Nos quatro anos da primeira presidência Dilma Rousseff pouco apareceu. Só deu eventualmente o ar da graça quando das viagens internacionais da titular. Aí assumia burocraticamente o cargo como um intruso entre os petistas. Na volta da Presidente, voltava à irrelevância habitual. Aproveitou até – na falta do que fazer – para escrever um livro de poesias. Como poeta foi considerado um bom político.

Na eleição de 2014 manteve o padrão habitual. O PMDB permaneceu aliado ao PT e Temer continuou na chapa como candidato à vice-presidente. Ficou porque não criou nenhum problema para o PT. Mas o incômodo da sociedade com o projeto criminoso de poder petista já aflorava. De Temer não se ouviu nenhuma palavra de desagrado ao petrolão, assim como manteve silencio durante o julgamento do mensalão, a ação penal 470. A corrupção petista não era um problema moral para Temer.

Com a reeleição de Dilma Rousseff manteve seus postos na administração pública federal e sua presença no porto de Santos. Era o que importava. Contudo uma variável inesperada surgiu no horizonte político: as manifestações de rua pelo impeachment. Temer continuou em silêncio. Só deu o ar da graça em um documento reclamando que o PMDB estava perdendo espaço no governo. O manifesto caiu no vazio. O país estava querendo moralidade administrativa, respeito às leis, à República; Temer estava preocupado com a partilha do poder.
Veio o processo do impeachment. E Michel Temer assumiu a Presidência da República. Era um desconhecido da maioria do povo brasileiro. As ruas não queriam Dilma e nem Temer. Mas a Constituição tinha de ser cumprida. Prometeu um ministério de notáveis. Descumpriu a promessa – apenas a primeira entre tantas. Tinha dificuldade de articulação com o novo Brasil que nasceu com o impeachment. Era visto como homem do passado – e do PT, afinal compôs a chapa com Dilma duas vezes.

O governo que seria de transição acabou com o escândalo JBS entrando em crise terminal. Ministros pediram demissão. Pressão no Congresso e na imprensa. Pedidos de renúncia. Ele resistiu. E se desmoralizou ainda mais com as denúncias que o envolviam com corrupção. Tanto que nenhum candidato à Presidência da República quis seu apoio, inclusive Henrique Meirelles, que tinha sido seu ministro da Fazenda. Acabou o governo isolado. Agora retorna à obscuridade de sempre.

 

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