O flerte de Bolsonaro com o autoritarismo. Artigo do Prof. Villa com o Correio Braziliense e Estado de Minas.

Marco Antonio Villa

A cada dia que passa aumenta o isolamento político do governo Bolsonaro. O Presidente da República não perde oportunidade para atacar o Congresso Nacional. Aproveita também para discordar publicamente de decisões do Supremo Tribunal Federal, inclusive daquelas que não envolvem diretamente o Executivo federal. Supõe que ainda é um parlamentar do baixo clero, como o foi durante quase três décadas, e que não tem responsabilidade sobre o que fala. Não compreendeu que exerce a Presidência da República, que qualquer palavra, qualquer gesto, tem enorme repercussão. Assim tem de ter responsabilidade, compostura, em relação à cadeira presidencial. A cada escorregão, desmoraliza a sua autoridade. E nem completou um semestre de governo.

Hoje, é muito claro aos principais atores políticos e econômicos, que a crise que vivemos tem nome: Jair Bolsonaro. Ele atua sempre com intuito de aumentar os problemas, amplia a combustão e, parece, satisfeito nesta ação. É como se o seu papel não fosse o de presidente de todos os brasileiros. Insiste em falar e governar para apenas o seu eleitorado. Tem enorme dificuldade de compreender que a eleição já terminou. Não consegue descer do palanque. Uma explicação possível é que não sabe como exercer a presidência, que não se adapta aos rigores e atribuições do cargo – e aos problemas nacionais. Como mecanismo de defesa optou por ignorá-los ou, quando muito, a minimizá-los. Sabe que não está à altura do cargo. Que não é um estadista.

Até hoje – quase um semestre de governo – não conseguiu citar nenhum antecessor, exemplificar uma boa ação ou apresentar um projeto e associá-lo às necessidades do país. Vive em meio ao panfletarismo barato, recheado de senso comum. Evita a reflexão. Como se o ato de pensar estivesse em desuso. Tem a ignorância como companheira.

Estamos vivendo um momento único na nossa história. Nada indica que a curto prazo vamos superá-lo. A tendência é de um agravamento, infelizmente. Para esconder sua inaptidão ao cargo, Jair Bolsonaro joga sempre com o confronto. Sem ele, não sobrevive. Isto porque tem enorme dificuldade de ser propositivo, de buscar ouvir seus opositores, de governar para todos. Escolheu o caminho que, no limite, leva à destruição da democracia. Como preservá-la se não convive com a diferença? A busca incessante de desqualificar o outro traz em seu bojo o desejo do poder absoluto. Só que vivemos em um Estado democrático de Direito.

Como superar esta contradição?
Jair Bolsonaro tem de se converter à democracia. Ainda é tempo. Deveria, inicialmente, ler a nossa Constituição, que ele desconhece. É o primeiro passo. Se deseja sinceramente ser o presidente de todos os brasileiros deve mudar seu estilo e sua visão de mundo. No último sábado, no Rio Grande do Sul, afirmou que precisa mais do povo do que do Parlamento. O que é isso? Quer uma ligação direta com o povo? Não precisa, para governar, do Parlamento? Isto tem nome. É fascismo. Neste caso seria recomendável algumas aulas que poderiam passar por Giovanni Gentile ou Benito Mussolini, entre tantos outros. O problema é que há uma contradição antagônica entre fascismo e Estado democrático de Direito. O Presidente da República é fascinado pelo autoritarismo. Basta recordar que tem como herói um torturador, isto quando a nossa Constituição (art. 5º, IV) reza que “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano e degradante.”

Quando visitou o Chile, teceu loas ao ditador Augusto Pinochet – demonstrou sua predileção aos ditadores do Cone Sul quando elogiou entusiasticamente Alfredo Stroessner. Vale citar novamente a nossa Carta Magna – insisto, que ele nunca leu – que no artigo 4º, II, determina nas nossas relações internacionais “a prevalência dos direitos humanos.”
O Presidente da República ignora solenemente os nossos princípios constitucionais. Continua agindo de forma irresponsável, como um adolescente rebelde – e, pior, com causa.

No mesmo Rio Grande do Sul resolveu tecer considerações – tem uma obsessão, vale um estudo psicanalítico – sobre o armamento da população. Disse que seria uma defesa contra uma tentativa de golpe de Estado. Golpe contra quem? Quer criar milícias? É o bolivarianismo tupiniquim? Será que as ligações perigosas – perigosíssimas!!! – que estabeleceu durante três décadas no Rio de Janeiro com o submundo policial não interferiu no seu discurso? Foi um ato falho? Quer criar estas “forças auxiliares”? Quem vai controlá-las? Ele?

Não faltam exemplos que demonstram o desejo de Jair Bolsonaro ser um ditador. Não será. Não porque não quer. Mas porque o Brasil não vai permitir. Temos, com todos os senões possíveis, um Estado democrático de Direito, uma Constituição em plena vigência e, principalmente, o amor pela democracia, que é produto de uma longa luta histórica, de um combate contra o autoritarismo à direita e à esquerda. É uma conquista recente e valiosa.

4 comentários sobre “O flerte de Bolsonaro com o autoritarismo. Artigo do Prof. Villa com o Correio Braziliense e Estado de Minas.

  • É bem assim. Espero que o professor esteja correto e que o Brasil vai dizer não a esse projeto de ditador do presidente.

  • Professor, boa noite, sou médico de MG e acompanho seu trabalho, gostei muito da análise, uma vez que você fala aquilo que não ronda aos nossos olhos, sem medo e com compromisso com a realidade, os fatos e a democracia. Obrigado e continue assim!!

  • Estimado professor, a quem eu admiro e respeito.
    Entenda., Mais Brasil e menos Brasilia.
    Pela primeira vez em décadas, o protagonismo esta com o congresso.

  • Pela primeira vez em muitos anos, o congresso vai ter de decidir de acordo com sua consciência ou conveniências. Também pela primeira vez, o congresso, decidindo de uma forma ou de outra, tera, e maneira inedita, em toda a historia da republica, um povo atento e inquieto. As coisas mudaram, o mundo mudou e a política, para bem ou para mal, não será mais a mesma. Bolsonaro hoje é apenas mais um. Abraço!

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