“O primeiro teste do Presidente Bolsonaro”.

Marco Antonio Villa

Os últimos dias não foram nada favoráveis ao Presidente eleito. O Partido Social Liberal se transformou um agrupamento estudantil de viés trotskista. Todos estão contra todos. O PSL não é um partido político na acepção do termo. Não passa de um ajuntamento de parlamentares que conseguiram se eleger na onda Bolsonaro. E só. A ideologia é fluída, pobre, desconexa. Cada um fala o que bem desejar – ou o que acha que é mais conveniente para o Presidente eleito. Não conseguem agir como um partido político e – por mais estranho que pareça a um observador estrangeiro – poderão se transformar no maior agrupamento parlamentar na Câmara dos Deputados a partir de fevereiro com as adesões que devem ocorrer, fazendo com que salte para algo próximo a 70 deputados. Eu já tinha alertado sobre a fragilidade do partido em artigos anteriores mas, confesso, não imaginava que muitas antes da posse uma luta fratricida se estabelecesse no interior da agremiação. O pior é que o embate é travado em nível rasteiro, coisa de botequim. Não de um partido que tem a responsabilidade de representar o pensamento do Presidente eleito. Teria de dar exemplo de compostura, porém não é o que tem ocorrido. São novatos, frutos da indignação do eleitorado e do desejo de acabar com a velha política. Não sabem o que é o Parlamento e o papel de um partido.

A situação política ficou ainda mais confusa com os episódios envolvendo Fabrício Queiroz e o deputado (hoje senador eleito) Flávio Bolsonaro. Está claro que a movimentação financeira do assessor é incompatível com seus rendimentos. Tudo dá a entender que houve lavagem de dinheiro. Os depósitos e saques são suspeitos. Os dados apresentados pelo COAF são preocupantes. É preciso investigar a fundo. Até o momento não há envolvimento direto de Jair Bolsonaro. Mas é indispensável que o assessor apareça, apresente sua defesa e consiga justificar plenamente suas movimentações financeiras. Pode também assumir que o deputado não sabia de que recebia – como é possível inferir pelos dados do COAF – valores mensais de outros assessores parlamentares do mesmo gabinete. Sua versão tem de ser factível. Caso contrário poderá atingir Flávio Bolsonaro e, por tabela, o Presidente eleito – que, até este instante, registre-se, não teria conhecimento destes fatos. Quando mais cedo tudo for esclarecido, melhor.

Filho não é cargo. Alertei para esta anomalia em outro artigo. O Presidente terá de enfrentar estas denúncias, isto porque os três filhos, dando sucessivas declarações à imprensa, produzem um enorme passivo político. Hoje, é Flávio Bolsonaro; amanhã, poderá ser Eduardo Bolsonaro; e depois de amanhã, o sorumbático Carlos Bolsonaro. Como se diz popularmente, caberá a Bolsonaro por ordem no galinheiro. O episódio envolvendo Fabrício Queiroz, o homem de 1,2 milhão de reais, poderá ter sido uma benção caso Bolsonaro deixe patente que seus filhos tem uma vida política própria e que ele não pode ser responsabilizado por qualquer desatino que cometam. Não será tarefa fácil. Eles só se tornaram parlamentares graças ao prestígio do pai. Mas a gravidade das denúncias deve obrigar o Presidente a romper este cordão umbilical. Se não o fizer, começará seu governo com uma granada no colo, pronta para explodir.

E o ministro Sérgio Moro, como vai se posicionar frente aos fatos? Não deve silenciar. Claro que poderá argumentar que ainda não assumiu o cargo. Todavia, a partir de 1º de janeiro terá de se pronunciar sobre o ocorrido, inclusive porque o COAF – que estará sob sua jurisdição – vai continuar a apresentar dados das movimentações suspeitas envolvendo o gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro. Moro tem um patrimônio moral a zelar. Virou uma referência nacional no combate à corrupção. Certamente não encobrirá nada que configure um crime. É um republicano. E, se tudo não ficar devidamente esclarecido, poderá simplesmente renunciar ao cargo, o que seria um desastre para o governo e principalmente para o Brasil.

Os petistas – que patrocinaram o maior desvio de recursos públicos da história, o petrolão – estão comemorando as acusações. Querem demonstrar que política é assim mesmo, que todos são como eles, ou seja, corruptos. Não. A nova política é inimiga mortal da corrupção. O Brasil precisa de estabilidade política para retomar o desenvolvimento econômico. É necessário retirar o país do atoleiro onde foi jogado pelo PT.

Quanto mais cedo for esclarecido os fatos, melhor. O novo governo está passando pelo primeiro teste – de muitos que deverão vir. E, vale ressaltar, o fato gerador não foi criado pela oposição. Foi algo interno, que precedeu, inclusive, o processo eleitoral. Até a semana passada o novo governo estava com o comando da embarcação. Controlava os ventos, a velocidade e o rumo. Hoje não parece tão seguro. Pode ser necessário jogar ao mar carga perigosa. Caso contrário, dificilmente chegará a porto seguro.

Marco Antonio Villa é historiador.

8 comentários sobre ““O primeiro teste do Presidente Bolsonaro”.

  • Claro professor. Se for para começar de forma viciada e corrupta sem direção e clareza suficiente, que nem comece. Estamos cheios de falacões e imbróglios de toda espécie. Queremos um Brasil de compartilhamento social transparente. Se não, não nos interessa!

  • Villa :
    Por que você não tem comentado mais no Jornal da Cultura ?
    Estamos sentindo a tua falta na telinha.
    Abraços :
    Renato

  • Artigo 10, isento, equilibrado e esclarecedor .
    Tomara que o Presidente Bolsonaro consiga controlar o Partido, seus filhos e colaboradores e que o Min. Sérgio Moro, no M. Da Justiça seja um marco e elemento propulsor do combate à corrupção e fortalecimento da República.

  • Ótima reflexão professor Villa, faça um vídeo por favor com relação de livros de Historia Russa, quero focar meus estudos para neles.Obrigado.

  • Como sempre, artigos elucidativos e imparciais! E também espero equidade e decoro no novo governo; só assim transporemos corrupção e impunidade, marcas vexaminosas de governos anti-republicanos.

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