Paulo Guedes e Ernesto Araújo: dualismo no governo.

Marco Antonio Villa

Artigo do historiador Marco Antonio Villa no Correio Braziliense e Estado de Minas:

Paulo Guedes e Ernesto Araújo: dualismo no governo.

É curiosa a dicotomia existente no governo federal entre os ministérios da Economia e o das Relações Exteriores. Enquanto o primeiro tem como objetivo a integração da economia brasileira ao processo de globalização, o segundo quer afastar o Brasil do que chama de “globalismo” submetendo o nosso país aos ditames dos Estados Unidos.

O Itamaraty, na atual gestão, virou uma sucursal do Departamento de Estado norteamericano. Age por reflexo, sem, em momento algum, priorizar o interesse nacional. É como se o Brasil fosse uma espécie de estado associado, um Porto Rico da América do Sul. Melhor ainda: não foi necessário nenhuma Guerra Hispano-Americana, como a de 1898, que incorporou aquele território – antiga colônia espanhola – aos Estados Unidos. Aqui bastou a introdução de uma visão de mundo produzida em Washington. Ao invés da guerra houve a aceitação de um discurso que desqualifica o nosso país e ameaça a nossa segurança nacional. Ernesto Araújo conseguiu em apenas dois meses ser tão ruim aos interesses nacionais como o tenebroso Celso Amorim. Ambos partilham do mesmo sentimento: o de estar à serviço de alguma ideologia exótica produzida ao norte do Equador.

Já o ministro Paulo Guedes tenta a todo custo modernizar o Brasil. Sabe que a tarefa é complexa. Enfrentar os cartórios empresariais já custou um mandato de Presidente da República. A abertura da economia, eliminando subsídios e privilégios, apostando na competividade, leva necessariamente à inserção na ordem econômica mundial. E estabelecer boas relações com todos os nossos parceiros é muito importante. Sendo assim, a política externa tem de estar em sintonia com os interesses econômicos do Brasil, somente do Brasil.

A inútil visita programada aos Estados Unidos e Israel aprofunda a contradição entre os dois ministérios. Ir a Washington, especialmente, neste momento é absolutamente incompreensível. Primeiro, devido à necessidade do Presidente estar presente no país no momento da tramitação da Reforma da Previdência na Câmara dos Deputados. A sorte política do quadriênio presidencial está sendo jogada neste semestre. Uma derrota – ou a aprovação de um projeto desidratado – significará o fim do governo e até, no limite, a saída de Paulo Guedes do Ministério da Economia.

Mas – para ficarmos no campo das relações exteriores – é sabido que o contencioso dos Estados Unidos com a China está próximo do fim. Pequim deverá assumir diversos compromissos em relação principalmente à importação de grãos. Como é do conhecimento geral, o Brasil é um concorrente dos americanos neste setor. E a compra de grãos produzidos por eles levará a uma diminuição das importações chinesas dos produtores brasileiros.

A visita a Israel também deverá gerar consequências negativas. Certamente vai ser tratada a questão da mudança da nossa embaixada para Jerusalém. A repercussão negativa entre os árabes será inevitável e com sérios prejuízos nas exportações de carne e aves. Além de colocar o Brasil na rota do terrorismo internacional. Outra vez, Araújo e Amorim estarão irmanados. O PT quis transformar o Brasil em um ator na cena política do Oriente Médio. Foi um desastre. No caso era uma ação anti-israelense e anti-americana. Agora será pró-americana e pró-israelense. Ambas contrariando o interesse nacional brasileiro que sempre se manteve favorável a uma solução pacífica dos conflitos na região, buscando um acordo diplomático entre as partes.

O alinhamento automático – e servil – aos interesses diplomáticos de Washington trará, além de problemas políticos, sérios danos no campo econômico. É um crime de lesa Pátria. O chanceler Ernesto Araújo – seguindo as pegadas petistas – está transformando o Itamaraty em valhacouto de ideólogos fracassados. Antes foram os defensores da diplomacia Sul-Sul; agora são os praticantes do anti-globalismo.

Esta contradição entre os ministérios terá de ser resolvida rapidamente. Não é possível ter um governo com sinais absolutamente contraditórios. O liberalismo apregoado por Guedes é oposto ao protecionismo de Trump, que tem no Brasil como aio o ministro Araújo. Nos mercados internacionais do agronegócio ambos os países são concorrentes. E cada Presidente da República deve defender os interesses dos seus produtores. Trump faz o papel dele – especialmente em um ano pré-eleitoral. O problema está em nós, no Itamaraty, que assumiu como seu uma ideologia de matriz norte-americana que trará sérios prejuízos à nossa segurança nacional.

Cabe retomar o caminho do Barão do Rio Branco. Entender que os interesses do Brasil estão sempre à frente de qualquer partidarismo. Que o Itamaraty é um órgão de Estado. Não é um instrumento de um governo. Chega de aventureirismo petista. Antes, ao lado dos bufões latino-americanos, os ditadores bolivarianos; agora, ao lado do bufão americano. O carnaval já passou, ministro. Tire a fantasia e comece a pensar no Brasil.

8 comentários sobre “Paulo Guedes e Ernesto Araújo: dualismo no governo.

  • Perfeita análise professor, mas com Bolsonaro à frente será impossível retomar o caminho dos interesses do Brasil, o partidarismo é a pauta e o Itamaraty é um órgão de uma extensão dos americanos.

  • O Sr. está certo. Infelizmente, escolher errado um ministro é horrível para um Estado. Será que o presidente não enxerga o óbvio das suas palavras. Estou ficando apreensível que esse governo não seja mais um que vai passar, sem nada apresentar de concreto para a população.

    • Votei no Bolso, contra o outro, mas já sabia que ele não tinha a menor condição de tomar conta de uma padaria.

  • Assim como o Janio, votei e estou preocupadíssimo. Garotos influenciando o papaizinho, um auto-didata residente nos EUA indicando nomeações para postos-chave (educação, política externa), um presidente aereo, só dando importância para banalidades… Pobre Brasil !!!!

  • Parabéns professor por sua coragem em dizer verdades. Se analisarmos os acontecimentos anteriores a 1964 com os atuais veremos muitos pontos em comum. Realmente é muito preocupante.

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