UOL: Os nazifascistas bolsonaristas

O nazifascismo bolsonarista tem a sua própria história. Não é possível estabelecer uma ligação com o integralismo dos anos 1930. A AIB (Ação Integralista Brasileira) fundada em outubro de 1932 por Plínio Salgado, em São Paulo, tinha uma estrutura de partido nacional —o que era uma novidade à época; não custa recordar que na República Velha os partidos eram regionais—, organizações de massa, intelectuais orgânicos —muitos seguiram por outros caminhos depois da sua extinção—, inúmeras publicações e um projeto para o Brasil e tendo como base o catolicismo tradicional, o nacionalismo e o velho autoritarismo nacional com tinturas do fascismo italiano.

Seu líder máximo já era à época um conhecido escritor: “O estrangeiro” tinha sido publicado em 1926. Com o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937, a AIB foi —assim como os outros partidos políticos— colocada na ilegalidade.

A AIB não foi a única manifestação do extremismo político tupiniquim. Mas foi o partido que obteve, no seu curto espaço de vida, uma presença nacional e que nunca mais se repetiu na história republicana.

O nazifascismo bolsonarista tem outra origem. É herdeiro de uma extrema-direita anticomunista dos anos 1950-1960. Tinha no patético almirante Penna Botto seu mais conhecido membro.

À época foi até criada a expressão “pennabottismo”, que sintetizava a mediocridade do “pensamento” do almirante. Sérgio Porto, no fantástico Febeapá, o Festival de Besteira que Assola o País, fez questão de registrar um momento deste valoroso homem do mar: “Lembram-se do Almirante Penna Botto? Pois voltou. Voltou e deu uma entrevista no aeroporto, dizendo-se a favor da guerra do Vietnã e declarando que é preciso invadir a China e acabar de vez com Mao Tse-Tung. Bonifácio Ponte-Preta —o Patriota— vibrou com as palavras do almirante, principalmente em relação à invasão da China. O Boni, espumando de civismo, berrava: ‘Deixa ele ir! Deixa ele ir!'”

Nem a ditadura militar suportou o almirante falastrão. Contudo, nas bordas do regime encontrou eco entre os extremistas dos órgãos de repressão, os torturadores, a chamada “comunidade de informações.” E depois entre os “frotistas”, os adeptos da candidatura do general Sylvio Frota, ministro do Exército, à Presidência da República. Estes, quando constataram a inviabilidade de Frota chegar à Presidência, patrocinaram o golpe de Estado de 12 de outubro de 1977. Fracassaram.

Deve ser recordado que o general Heleno, à época capitão, era oficial de gabinete de Frota. E no aeroporto de Brasília o coronel Ustra foi enviado pelo ministro para recepcionar os comandantes de Exército que tinham sido chamados à Brasília e levados ao Forte Apache, sede do Ministério da Exército.

Os generais acabaram indo para o Palácio do Planalto onde se reuniram com Ernesto Geisel e tomaram conhecimento da demissão de Frota. No campo militar, o último momento dos extremistas também redundou em um grande fiasco: o atentado do Riocentro, em 1981, que tinha como objetivo interromper o processo de abertura democrática de João Figueiredo.

Os nazifascistas bolsonaristas tem esta origem. E agem da mesma forma. Não conseguem organizar um partido político, formar organizações de massa, ter intelectuais orgânicos, construir um projeto de governo, publicar livros, nada, nada disso. Adotam um cristianismo de fancaria com pastores que vez ou outra trocam a Bíblia pelo Código Penal.

Tem no que há de pior nos Estados Unidos —os supremacistas brancos, por exemplo— a referência política. Vociferam, espumam sua raiva, tal qual os terroristas do Riocentro, os torturadores e os golpistas de 1977. Não é acidental que o general Heleno, hoje, esteja no Palácio do Planalto e nem que o torturador Carlos Alberto Ustra tenha sido transformado em herói nacional por Bolsonaro.

A versão século 21 do extremismo brasileiro conseguiu —e é um feito— piorar o que já era ruim. Se antes eram almirantes e generais os agentes do caos, agora são cantores decadentes e humoristas sem nenhuma graça. Além de rastaqueras sequiosos para organizar suas tropas de choque, as SAs. E tem na presidência da República um “imbrochável,” que é chamado de mito mesmo tendo sérios problemas cognitivos e com um vocabulário de 500 palavras.

A malta nazifascista bolsonarista sequestrou o verde-amarelo, isto quando não tem qualquer identificação com a nossa bandeira. Sugiro que deixem de lado a apropriação criminosa dos nossos símbolos.

Deveriam —e podem fazê-lo já na manifestação golpista da próxima terça-feira— adotar, sem subterfúgios, a suástica e o fascio. É mais honesto. Desta forma os símbolos estariam adequados ao discurso totalitário, racista, misógino e antissemita. E a bandeira brasileira não ficaria marcada pelas mãos sujas dos inimigos da democracia.

Neste processo de assalto à tradição nacional, os nazifascistas bolsonaristas agora desejam tomar o 7 de Setembro para si. Continuarão a propagar o golpe de Estado, a destruição do Estado democrático de Direito. Babam quando atacam a Constituição. São perigosos. Apostam no apoio das PMs e de grupos paramilitares. Sonham com a divisão das Forças Armadas. Querem ensanguentar o Brasil. Devem ser contidos antes que seja tarde demais. E não faltam instrumentos legais.

 

https://noticias.uol.com.br/colunas/marco-antonio-villa/2021/09/02/os-nazifascistas-bolsonaristas.htm

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