18 Maio 2016 | 03h 00
A capacidade do prefeito Fernando Haddad de surpreender negativamente não tem limite. Quando se pensa que ele já fez todas as trapalhadas, escolhas equivocadas, sem falar nos escorregões de comportamento administrativo e político, e por aí afora, eis que ele surge com uma novidade. E esta é estonteante, de qualquer ponto de vista: Haddad resolveu fazer uma “pegadinha” ou passar um trote num de seus críticos, com o qual parece se sentir particularmente incomodado.
No domingo mandou publicar agenda falsa de suas atividades para o dia seguinte. Nela, a Prefeitura informava que a partir das 8h30 de segunda-feira Haddad faria só “despachos internos”. Isso foi feito de propósito, como ele mesmo reconheceu depois numa postagem em sua página no Facebook. O objetivo era induzir a erro o seu crítico, que faz comentários para uma rádio de São Paulo, e deixá-lo em situação constrangedora.
Mais uma vez, o título da postagem – Trote num pseudointelectual – mostra que o prefeito agiu friamente, não no calor da irritação, adotando um comportamento que só a palavra molecagem pode qualificar com precisão. Segundo Haddad, aquele crítico tem feito comentários a suas agendas públicas “com o conhecimento de quem nunca administrou um boteco”. A essa altura do texto infeliz, para dizer o mínimo, os paulistanos que dele tomaram conhecimento pelas redes sociais certamente se perguntaram, perplexos, como é possível o prefeito da maior cidade do País e seu principal centro econômico comportar-se dessa maneira.
Espanto que foi num crescendo, porque pelo visto Haddad perdeu mesmo as estribeiras. Impávido, ele continuou explicando o seu trote: “Mas, hoje, para que os ouvintes (da rádio do desafeto) tenham uma pálida ideia desse embuste, resolvemos substituir, por algumas horas, a minha agenda pela de outro político, apenas para vê-lo comentar, uma vez na vida, o dia a dia de quem ele lambe as botas”. Nesse ponto, para aqueles paulistanos frequentadores das redes sociais – aos quais se juntaram todos os que ficaram sabendo do caso pelos demais meios de comunicação –, ou o prefeito desatinou ou ele sempre foi isso que o trote revela: alguém que não suporta críticas e por isso é capaz de reagir a elas apelando para expedientes antiéticos e a palavreado chulo.
Disse ainda o prefeito que seu crítico desonra o jornalismo. Ao que este respondeu depois, e com inteira razão, que Haddad é que desonra o cargo que ocupa. De fato, por um processo psicológico bem conhecido, o prefeito está projetando em seu crítico algumas de suas características e comportamentos. Nesse caso, os piores.
Esse episódio vai além da simples molecagem, embora isso, por si só, já seja suficiente para torná-lo grave. Ele tem aspectos políticos e legais da maior importância. Haddad usou seu cargo e os poderes que lhe dá para entrar numa querela pessoal com um crítico. Ele não tem o direito de fazer isso, porque aqueles poderes são públicos, não lhe pertencem. 
Além disso, como disse a respeito desse triste caso Sílvio Ferreira, professor de Direito Administrativo da PUC de São Paulo, o prefeito violou o princípio da publicidade, constante da Constituição e ao qual estão sujeitas as autoridades públicas, e também a Lei de Acesso à Informação, que determina ao poder público a “gestão transparente da informação”. Em resumo, “esse não é o comportamento que uma administração pública deveria ter. Embora pudesse ter suas razões para estar aborrecido, não poderia utilizar um canal público de divulgação de informações com essa finalidade”.
E tem mais. Segundo a apurou a reportagem do Estado, o político de quem seu crítico lamberia as botas, que Haddad não cita nominalmente, seria o governador Geraldo Alckmin, que no último dia 5 também publicou uma agenda da qual constavam apenas “despachos internos”.
Esse episódio tem, se se pode dizer assim, um aspecto positivo: ele traça um retrato sem retoques, e muito feio, de Haddad.