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Quando Pedro Collor de Mello deu a sua primeira entrevista à imprensa, em dezembro de 1991, criticando Paulo César Farias, o tesoureiro da campanha presidencial de seu irmão, Fernando, o já presidente Collor disse que tudo não passava de “questões da paróquia, da província”. Mas o fato é que a famosa República das Alagoas, grupo de empresários e políticos locais que foram com Collor para o Planalto, ainda lhe daria muita dor de cabeça dali em diante.
Collor começava a viver, sem perceber, o início de uma derrocada que começara, a bem da verdade, desde o início de seu governo, com planos econômicos mal-sucedidos, medidas que desagradavam tanto aos empresários quanto aos trabalhadores, além do desprezo pelas negociações políticas no Congresso. No livro Collor presidente, o historiador Marco Antonio Villa revisita todo esse período, traçando um painel rigoroso do primeiro governo democraticamente eleito no Brasil após os mais de 20 anos da ditadura militar instaurada em 1964.
Na entrevista abaixo, comenta a produção da obra e revela que deve escrever um livro também sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Entre outros, você escreveu um livro sobre João Goulart e um livro sobre a “década perdida” dos anos do PT no governo. Por que decidiu retornar ao governo do ex-presidente Fernando Collor de Melo?
Para melhor conhecê-lo. O governo acabou ficando marcado pelo processo do impeachment e pelos primeiros desdobramentos do Plano Collor 1. Sabia que haveria muitos outros temas para tratar. E foi o que fiz procurando mostrar a complexidade daquele momento histórico.
Seu livro está sendo publicado no momento em que o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff avança no Congresso. Ao revisitarmos a história, fica bem claro que a sucessão de erros políticos foi minando a relação de Collor com o Congresso, num momento em que a economia também ia mal e a popularidade dele se esvaía – o mesmo que parece acontecer com a petista, conservadas as devidas diferenças. Além da evidente falta de tato político dos dois governantes, é possível traçar mais paralelos entre esses dois momentos políticos do Brasil?
 
Difícil. Assumir o governo em 1990 foi muito mais difícil do que em 2014 (no caso do segundo mandato de Dilma). Isso tanto em termos da conjuntura internacional (lembre-se que a Guerra Fria estava acabando com a queda do Muro de Berlim), como a situação interna era muito mais complexa nos planos econômico (com inflação anual de quatro dígitos) e uma tensão social-política muito maior do que a de 2016. Também deve ser relembrado que as acusações que pesavam sobre Collor eram sensivelmente menores do que as que pesam sobre Dilma.
É interessante lembrar que figuras como Leonel Brizola defendiam Collor temendo mais um “golpe político” no país. O Brasil passou pelo primeiro impeachment e se encaminha para o segundo. O senhor acredita que a nossa democracia resistirá mais uma vez?
Sim. Com todos os defeitos que têm as nossas instituições, elas resistiram bem em 1992 e também estão indo muito bem em 2016. A fase de golpes militares ou civis é coisa do passado. 
Sete meses após assumir a Presidência surgiu a primeira denúncia contra Collor e Paulo César Farias, no caso da privatização da Vasp. Quando Pedro Collor deu a primeira entrevista acusando PC de corrupção, o presidente também não deu muita bola. Você acha que ele subestimou esses “avisos” e que poderia ter contornado a situação e evitado a necessidade de renúncia?
Teve soberba, muita soberba. Poderia ter construído uma base mais sólida – politicamente falando – de governo mais cedo do que a tentativa de 1992. Faltou ler melhor a conjuntura, ter um grupo político sólido e uma estrutura partidária eficiente – o PRN era um pequeno partido e sem nenhuma organicidade.
Nas considerações finais da obra, você lista uma série de medidas benéficas do governo Collor, que passou à história como corrupto e maldito. Você considera que ele pagou um preço muito alto por ter aberto certos caminhos, como a defesa das privatizações, do desmonte do Estado e da abertura econômica aos produtos estrangeiros?
Abriu excessivamente o leque de inimigos. Em política isto é mortal. Se tivesse uma ação mais gradualista, mesmo com as acusações de corrupção, teria sobrevivido.
Sobre a produção do livro: quanto tempo levou coletando os documentos, as informações e fazendo entrevistas? Foram quantas? Como foi a recepção dos entrevistados, inclusive o próprio Collor, à ideia de revisitar suas memórias em prol da escrita dessa história?
Foram dois anos de pesquisas. Todos os entrevistados receberam bem o contato e as perguntas, inclusive Fernando Collor. E recebi muita ajuda em documentos. Deu para sentir que os atores daquele momento histórico estavam interessados na discussão, análise e melhor conhecimento do período.
Por último, uma curiosidade: tem vontade de escrever sobre o período de governo de Fernando Henrique Cardoso?
É um novo desafio – e estou muito animado. Espero – assim como no “Collor Presidente” – contar com a ajuda dos atores políticos e econômicos daqueles anos (1995-2002).

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