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Historiador faz um balanço dos 30 meses de Collor na presidência.

Primeiro presidente a ser eleito diretamente em 29 anos (desde Jânio Quadros, em 1961), Fernando Collor também entrou para a História de forma inglória, ao sofrer o processo de impeachment e renunciar, em 1992. Em seus 30 meses de governo, contudo, ele tomou medidas e propôs reformas importantes, que foram ofuscadas pelo escândalo de corrupção que resultou no seu afastamento. Em “Collor presidente” (Record, 364 pgs. R$ 49,90), o historiador Marco Antonio Villa faz um balanço equilibrado e abrangente do turbulento governo Collor. Nesta entrevista, Villa – também autor de “Jango, um perfil”, “Mensalão: o julgamento do maior caso de corrupção da história política brasileira” e “Década perdida”, entre outros livros, analisa quais foram os principais defeitos e méritos de Collor na presidência.

– Você conversou longamente com Fernando Collor. Isso significa que se trata de um livro “autorizado”?

MARCO ANTONIO VILLA: Não. Em momento algum pedi autorização. É um livro de um pesquisador de história política brasileira.

– Collor teve no PT seu principal inimigo, mas depois ELE se tornou aliado dos governos do PT E até outro dia apoiava a presidente afastada. O que isso diz sobre Collor e sobre a política brasileira?

VILLA: Não sei. Presumo que o então candidato a senador em 2006 pelo estado de Alagoas tenha entendido que a única chance de ser eleito – e disputava somente uma vaga – seria através de uma aproximação com o então presidente Lula, seu adversário de 1989. Não tratei com ele sobre questões políticas posteriores à renúncia, ou seja, posteriores a 29 de dezembro de 1992. A aproximação política entre adversários não é novidade no Brasil. Basta recordar – e aí é um exemplo extremo – a aliança entre Prestes e Vargas entre 1945-1947.

– Que pontos positivos você destacaria nos 30 meses do Governo Collor?

VILLA: A abertura da economia. Isto foi fundamental. Ele também enfrentou tabus, como a privatização e a necessidade de diminuir o tamanho do Estado. Enfrentou “cartórios” empresariais, aprovou o Estatuto da Criança e do Adolescente, presidiu com competência a Rio-92…

– Qual foi o principal erro de Collor?

VILLA: A soberba. Achar que os 35 milhões de votos seriam a arma para emparedar o Congresso. Faltou fazer política, articular apoios e buscar consensos e não confrontos. Tinha um pequeno partido, sem políticos expressivos. Apesar de ter organizado bons ministérios, sempre foi visto pela elite dirigente político-empresarial como alguém de fora, um meteco em Atenas.

– Se o ousado pacote econômico de Collor tivesse dado certo, ele teria sofrido impeachment? No final das contas, é a economia que determina  o destino de um presidente, muito mais que qualquer escândalo de corrupção?

VILLA: É e não é. A História se movimenta também de forma surpreendente. Em 1992 – após os dois planos de estabilização – até o início de maio, parecia que aos trancos e barrancos ele iria até o final do mandato, e até com a adoção do parlamentarismo – que dizia apoiar – que  seria motivo de um plebiscito em setembro de 1993. Não havia nenhum outro projeto com força de derrubá-lo. A oposição estava fragmentada com projetos pessoais que criaram á época obstáculos partidários, como o de Orestes Quércia no PMDB.

– Que papel teve no impeachment o componente familiar, isto é, a vingança pessoal de seu irmão Pedro? Sem esse elemento, Collor teria sobrevivido?

VILLA: Foi muito importante. Pode ter sido decisivo. As duas entrevistas para a revista “Veja” – em maio de 1992 – alteraram radicalmente o panorama político e levaram à CPMI. Mas, mesmo assim, até a “descoberta” do motorista Eriberto, parecia que Collor ainda se salvaria. Mas as entrevistas de Pedro Collor atingiram o coração do governo.

– A redução do tamanho do Estado perseguida por Collor é um tema que volta à pauta na crise atual: todos concordam, desde que não sejam afetados. De onde vem essa crença dos brasileiros num Estado forte?

VILLA: A direita e a esquerda sempre tiveram no Estado o principal instrumento de levar o Brasil ao tão almejado desenvolvimento. Vale destacar que o regime militar brasileiro – e destaco este ponto no meu “Ditadura à brasileira” – estatizou a economia, especialmente no quinquênio  Geisel. Enfrentar a concepção de que o Estado é o principal agente da economia significou bater de frente contra interesses consolidados há décadas na sociedade brasileira. E isto teve um custo político em 1992. Temos uma “cultura” de que o Estado é o grande provedor. Transferimos a ele a solução de todos os problemas e a razão de todos os males, inclusive dos fracassos pessoais.

– Collor foi eleito com apoio do empresariado, que depois o abandonou. Que avaliação você faz do empresariado na crise que levou ao impeachment de Collor?

VILLA: Collor nunca foi o candidato preferencial dos empresários. Mas, com o fracasso das candidaturas de Ulysses Guimarães e Mário Covas, restou Collor. Mais ainda: com o crescimento de Brizola, parte do empresariado encontrou no governador alagoano o único candidato que poderia enfrentar a esquerda. No segundo turno, quando enfrentou Lula, aí sim o empresariado em peso – e com muito dinheiro – transformou Collor no “seu” candidato. Com certeza, nunca leram a plataforma do candidato. Vale lembrar que a proposta de governo rompia a velha aliança do empresariado com o Estado, quebrava monopólios e afetava interesses petrificados. Na crise do impeachment, amplos setores empresariais passaram à oposição aberta, boa parte porque perderam privilégios. Foi a hora da vingança.

– Por que os artistas e intelectuais nunca apoiaram Collor?

VILLA: Ele não era do eixo Rio-São Paulo e nem conseguiu construir uma ponte com as figuras mais expressivas do meio artístico. A linguagem popular da sua candidatura e o afastamento das teses clássicas da esquerda brasileira certamente ajudaram em muito no seu isolamento. Também deve ser lembrado que o muro de Berlim caiu em novembro de 1989, em plena campanha eleitoral.

– PC Farias justificou o uso de doações ilegais alegando que a legislação eleitoral era impossível de ser cumprida, discurso que se repete a cada novo escândalo envolvendo políticos. A legislação evoluiu de lá para cá?

VILLA: Hoje mudou – e muito. Mas o Petrolão colocou no bolso a fórmula de PC Farias de recolher doações e propinas. Frente ao Petrolão, PC é como um aluno do curso fundamental frente a um doutorando. PC é um dos últimos representantes da velha corrupção.

– Collor elaborou um discurso acessível ao povo, que mascarava a complexidade dos problemas nacionais. Um político que apresente as coisas como elas são tem chance de se eleger? Ou sempre terá mais chance o candidato que prometer o impossível?

VILLA: O discurso eleitoral de Collor foi o mais afinado ao momento eleitoral. Lembre-se que a eleição presidencial foi solteira, ou seja, somente para presidente. Aquele panorama eleitoral nunca mais se repetiu. Foi a eleição com o maior número de candidatos. E depois de 29 anos do último pleito direto, que elegeu Jânio Quadros. Também ocorreu após um ano da promulgação da Constituição. Havia a esperança de que tudo seria resolvido, todos os problemas. Como se a palavra tivesse um efeito mágico, e a ação fosse mera decorrência do discurso.

– Collor é sempre lembrado pelos escândalos de corrupção no imaginário popular, mas seu livro fala relativamente pouco sobre a corrupção no Governo Collor. Por quê?

VILLA: Não fiz uma crônica ou um relato jornalístico. Fiz um livro de história política. Enfrentei justamente a leitura que ficou olhando a árvore, a corrupção. Procurei ver a floresta, o conjunto do governo.

– Leonel Brizola quase foi para o segundo turno com Collor; ele teria sido um adversário mais forte?

VILLA: Se Brizola fosse para o segundo turno, o resultado poderia não ter sido diferente. Setores que se aproximaram de Lula poderiam não fazer o mesmo em relação a Brizola. Claro que estamos no terreno das hipóteses mas, naquela conjuntura, Collor era um candidato difícil de ser batido, mesmo contando com poucos apoios em São Paulo, Rio e Rio Grande do Sul, especialmente. Mas ele conseguiu estabelecer uma ponte direta com o eleitorado, este foi o segredo. Na eleição não precisou do apoio dos caciques. Mas precisaria deste apoio no governo. Enganou-se. Achou que a eleição seria a mesma coisa que o governo. Não foi. E pagou um preço – e que preço! – por isso.

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