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Texto publicado no Caderno Mais da Folha de S. Paulo em 01/10/2006 .

Deodoro, o arrependido

O proclamador da República diz que não deveria ter saído de casa na manhã de 15 de novembro de 1889, mas hoje quer “fazer algo pelo Brasil”
Por Marco Villa
Sou um soldado, um velho soldado. Aprendi em casa com os meus pais que os interesses do Brasil estão sempre em primeiro lugar. Perdi três irmãos na guerra do Paraguai: Hipólito e Afonso, que morreram na batalha de Curupaiti, e Eduardo, que tombou em Itororó, todos no mesmo ano.
Minha querida mãe, dona Rosa, ao receber a notícia da morte dos filhos, só quis saber se tinham morrido com honra. Fiquei cinco anos na guerra. E voltei com mais dois irmãos que lá lutaram. Gosto de brincar dizendo que devo a minha carreira ao [ditador paraguaio] Solano López.
Quando vejo o que acontece no Brasil, dá um desânimo… Uma vez disse que gostaria de pegar os ministros e levá-los à praça pública para que o povo os julgasse. E em seguida iria ao Parlamento e exporia as razões do meu gesto. Vejam que não há nada mais antipolítico do que isso. Mas sou assim.
Sou militar e não compartilho a forma como os políticos tratam o governo. Não gosto da forma como os partidos agem. Já fui presidente e não entendo nada de confabulações ou acordos políticos. Na verdade, não é que não entendo, é que os acordos geralmente envolvem transações que meu espírito de militar repugna.
Vocês sabem que até cheguei a fechar o Congresso Nacional -a bem da verdade, não fui o único, e muita gente pensa nisso até hoje. Queriam votar uma lei sobre crimes de responsabilidade para me atingir. Logo eu, que moro na mesma casa há anos, não tenho filhos e nunca fui acusado de nenhum delito no trato da coisa pública.
Lembro até de um quadro que me foi ofertado. Dias depois vieram cobrar um favor e recordaram do presente. Imediatamente paguei o quadro, porém fiz questão que o finório assinasse um recibo. Mas estava falando do Congresso. Foi reaberto duas semanas depois pelo Floriano [Peixoto]. Antes, renunciei à Presidência. Deixei claras minhas razões: “Assino a carta de alforria do derradeiro escravo do Brasil”.
Certamente, alguém deve estar perguntando por que quero novamente ser presidente. Bem, peço desculpas por ficar lembrando a toda hora o que fiz, mas há muito tempo disse que República, no Brasil, é desgraça completa.
E que não tinha a pretensão de querer me aproximar de Jó nem de Jesus Cristo. Mas quero fazer alguma coisa pelo meu país. Sou um soldado, não sou um literato, nem sei dizer belas palavras.

Falta coragem
Admiro os intelectuais e tenho em Rui Barbosa a minha referência. Quando entrei para o Exército, não fiz muitos estudos. Aprendi na prática, no campo de batalha. E por isso é que acho que falta coragem para os políticos enfrentarem os graves problemas brasileiros.
Já que estamos no terreno das revelações, nunca gostei dos “casacas”. Falam, falam, contudo, na hora da luta, somem, mandam nós, os militares, para cumprir suas ordens.
Lembram quando pediram para que perseguíssemos os escravos fugitivos? O Exército não tem essa função. Agora querem que a gente vá atrás dos traficantes. O Exército, como disse naquela época, não é capitão-do-mato nem polícia.
Quando renunciei, escrevi uma breve carta dizendo que deixava o poder nas mãos do funcionário a quem incumbia me substituir. Meus inimigos fizeram troça. Presidente não é funcionário, ironizavam. Não sei do que riram. Para mim, presidente é funcionário, sim.
É o primeiro funcionário público do país. Por isso, acho que devo dar sempre o exemplo. Não gosto de receber presentes, e a minha vida pessoal é muito simples. Vivo modestamente dos meus proventos como marechal da reserva. Não quero e não preciso de mais nada. Quando ouço falar em corrupção, fico com muito ódio.
Na hora, lembro dos meus manos e dos milhares que morreram no Paraguai defendendo a nossa pátria.

Sem conversa fiada
Muitos não gostam de mim porque sou rude. Não gosto mesmo de conversa fiada. Entrei para o Exército quando tinha 16 anos. Sou nordestino, andei pelo Centro-Oeste, conheço o Sul do país, estive no Uruguai e no Paraguai.
Passei boa parte da vida no Rio de Janeiro. Comandei tropas em muitos lugares mas também exerci funções de governo. Pretendo reunir um grupo de colaboradores escolhidos entre os mais sinceros republicanos para poder administrar o Brasil, assim como fiz da primeira vez.
Apesar da minha postulação à Presidência, sendo sincero, acho que a nossa República não tem jeito. Tem noites em que não consigo dormir. Numa delas acordei e falei para dona Mariana, minha mulher: “Você tinha razão, não devia ter saído de casa naquela manhã do dia 15 de novembro” [de 1889, quando proclamou a República]. Eu estava seriamente enfermo e os meninos vieram me buscar para ir aonde se encontrava o gabinete imperial. Ela disse: “Manoel, volta para a cama”. Como sou teimoso, segui os meninos, e deu no que deu.