Um combatente entre nós
Por MARCO ANTONIO VILLA
especial para a Folha

 

Foto: Almaque - Folha Online.

Foto: Almanaque – Folha Online.


Crítico da indolência do Estado, Lobato chegou a ser preso pela virulência de seus ataques


Monteiro Lobato parece um personagem do realismo mágico. Assemelha-se ao coronel Aureliano Buendía, de “Cem Anos de Solidão”, que “promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas”. Lobato foi um intelectual que criticou violentamente as elites e o marasmo do povo brasileiro. Foi também um empresário capitalista, nacionalista, profundamente antiestatista. Escreveu, polemizou, combateu, foi preso, mas nunca adulou o poder, algo raríssimo entre os nossos intelectuais.
Quis mudar o Brasil alterando os nossos hábitos, incentivando o culto do trabalho e do progresso material; não suportava viver em um país que era um “pântano com 40 milhões de rãs coaxantes, uma a botar a culpa na outra do mal-estar que sentiam”.
Quando herdou do Visconde de Tremembé a fazenda Buquira, Lobato iniciou sua trajetória de empresário agrícola: abandonou a monocultura do café, importou cabras, galinhas e porcos, diversificou a plantação, construiu um lago, enchendo-o de marrecos e gansos. Seu entusiasmo inicial, a esperança de transformar a propriedade em uma fazenda-modelo -chegou a tentar criar uma nova raça de galinhas-, lembra Policarpo Quaresma, mas, ao contrário do personagem de Lima Barreto, logo cai em si. O desânimo acabou entusiasmando-o a entrar na política local, porém logo desistiu. Em carta à irmã contou: “Ontem aturei uma visita de três horas dum eleitor. Enquanto ele comentava a minha entrada na política, eu cá comigo ia estudando meios de sair dela e ver-me livre de visitas semelhantes”.
Em 1917, cansado da vida monótona da fazenda, vendeu-a por 120 contos. No ano seguinte comprou a “Revista do Brasil”, que se transformou também em editora e publicou seu primeiro livro, “Urupês”, um grande sucesso de crítica e público: em menos de um ano vendeu 12 mil exemplares. Em 1919 fundou a “Monteiro Lobato & Cia”, que em pouco tempo lançou 15 livros com tiragens muito superiores às rotineiras: “A Menina do Narizinho Arrebitado” teve uma edição de 50 mil exemplares. Lobato publicou Menotti del Picchia, Oliveira Viana, Lima Barreto, Oswald de Andrade, Francisca Júlia, João Ribeiro, Gilberto Amado, Visconde de Taunay, entre tantos outros.
Criou centenas de pontos de venda de livros, escreveu dezenas de livros infantis e traduziu vários autores clássicos. Renovou nossa indústria editorial com ilustradores do porte de Di Cavalcanti e Wasth Rodrigues.
Com o crescimento das vendas, acabou se instalando, em 1924, em um grande edifício no Brás, com 5.000 m2 de área construída. Mas o período de prosperidade foi interrompido pela deflagração do segundo 5 de julho, quando os tenentes, liderados pelo general Isidoro Dias Lopes, ocuparam São Paulo durante um mês, a fim de derrubar o presidente Artur Bernardes.
Logo em seguida, a Light diminuiu drasticamente o fornecimento de energia elétrica para a cidade devido a uma seca prolongada, prejudicando a operação da gráfica. Para complicar ainda mais a situação, Bernardes suspendeu as operações de redesconto no Banco do Brasil, gerando um pânico financeiro. A editora acabou sendo obrigada a abrir falência.
Mas Lobato não desistiu: no ano seguinte, junto com Otales Marcondes Ferreira, fundou a “Companhia Editora Nacional”. Em carta ao amigo Godofredo Rangel escreveu: “A vida agora é material, estúpida -e se não volto às letras ou à pintura é por me parecer grotesco pensar em tais coisas em tal terra. Meu ideal hoje é um só. Assegurar a independência econômica e emigrar para uma terra bem diferente”.
Após breve passagem pelo Rio de Janeiro -onde acabou tendo problemas com os militares depois que escreveu, em “Mr. Slang e o Brasil”, que o “Exército, Marinha e todas as criações do Estado só existem para justificar a extorsão de impostos e a manutenção de um bando imenso de parasitas”- foi mandado pelo presidente Washington Luis aos Estados Unidos como adido comercial em Nova York. O fascínio pelo modo de vida americano já era grande. Tinha acabado de traduzir “Minha Vida e Minha Obra”, de Henry Ford, e ficara impressionado com a eficiência e o culto ao trabalho. Já em 1922 tinha escrito que gostaria de “viver num país vivo, como o dos americanos! Isto não passa dum imenso tartarugal. Tudo se arrasta”.
Visitou várias cidades, foi a Detroit conhecer Ford, leu tudo o que lhe caiu nas mãos, conversou com empresários e não parou de realçar, nas cartas enviadas ao Brasil, o nosso atraso comparativamente ao progresso norte-americano: “Sinto-me encantando com a América! O país com que sonhava. Eficiência! Galope! Futuro! Ninguém andando de costas!”. Desanimado, exclama: “O mundo já na era do rádio, e o Brasil ainda lasca pedra. Ainda é troglodita. O Brasil dorme. Daqui se ouve o seu ressonar. Dorme e é completamente cego”.
Nas viagens pelos Estados Unidos interessou-se pela siderurgia. Quando conheceu o processo “spong-iron”, concebido por William Smith, escreveu ao seu amigo Rangel que “perto do spong-iron, todos os livros de Camilo e Machado de Assis só valem materialmente pelo papel, e o papel contém carbônio e o carbônio é necessário à reação diante da qual todos devemos nos ajoelhar porque é a mãe da civilização”.
Mas a prosperidade americana acabou sendo atingida pela crise de 1929. Lobato, impressionado com o dinamismo da economia, tinha investido o pouco dinheiro que tinha poupado na Bolsa de Valores. O “crack” acabou levando todas as suas economias, deixando-o em situação difícil, tendo de vender a sua participação na “Companhia Editora Nacional”. Insistiu em comprar mais ações na Bolsa novaiorquina e acabou perdendo tudo. Mesmo assim, manteve o fascínio pelos Estados Unidos.

Para Lobato o Brasil não passava de um “imenso tartarugal”, onde tudo se arrastava

Seu melhor biógrafo, Edgard Cavalheiro, comentando o livro “América”, com impressões dos quatro anos nos Estados Unidos, publicado em 1932, escreveu com propriedade: “São raros os momentos de crítica ou censura. Transforma-se num autêntico Pangloss; não vê defeitos ou desgraça nem mesmo quando, em consequência do “crack’ da Bolsa de Nova York, 13 milhões de desempregados tornam a situação catastrófica. Passa, também, por cima do problema racial, pouco ou nada dizendo do negro ou dos brancos linchadores”.
Curiosamente, quando visitou Salvador, em 1948, ficou encantado com a cultura negra: “A grande coisa da Bahia é o negro, e das manifestações da civilização negra, tão profundamente africana, o candomblé é o produto supremo”.
Ao retornar ao Brasil, a grande luta de Lobato é pela exploração de petróleo, considerado como a razão da soberania dos Estados modernos e indispensável à libertação econômica. Debate pelos jornais e em conferências com aqueles que achavam absurdo o Brasil ter petróleo. Criou diversas empresas para iniciar a exploração do “ouro negro”, mas sempre esbarrou na burocracia oficial e nos interesses dos trustes, em especial da Standard Oil. Quando publicou em 1936 “O Escândalo do Petróleo”, o livro causou um grande impacto: em alguns meses vendeu quatro edições. Porém, com a chegada do Estado Novo, o livro foi retirado das livrarias e proibidas novas reedições.
Lobato não desistiu. Da mesma forma como atacou duramente o Código de Minas de 1934 -considerado pelos getulistas como uma manifestação nacionalista- por criar inúmeros embaraços à exploração do subsolo por empreendedores privados brasileiros, fez criticas severas ao Conselho Nacional de Petróleo (CNP), criado em 1938 e para muitos considerado um símbolo da defesa das riquezas naturais do Brasil. Para Lobato, o CNP impediu “as empresas nacionais até de gemer”; o seu diretor, o general Horta Barbosa, era leigo no assunto, autoritário e incompetente.
Na época falava-se muito em “economia dirigida”, certamente por influência dos planos quinquenais soviéticos, mas o nacionalismo de Lobato sempre foi antiestatal. Atacou o governo, reputando-o inepto para dirigir uma simples estrada de ferro, mas apesar disso queria normatizar todas as atividades econômicas, acabando por “transformar a complexíssima economia da nação numa vasta Central do Brasil”. Desanimado, desabafou: “Os nossos estadistas dos últimos tempos positivamente pensam com outros órgãos que não o cérebro -com o calcanhar, com o cotovelo, com certos penduricalhos-, raramente com os miolos”.
Na defesa do petróleo fez questão de não ser confundido com um chauvinista. Ao contrário, reconheceu a necessidade de contar com a colaboração das empresas estrangeiras e de suas técnicas, pois “nada faremos de positivo, se teimarmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau”. A questão central era manter o controle nacional do subsolo explorado pela iniciativa privada em associação com empresas estrangeiras, sem a participação estatal na esfera da produção.
Mesmo com o Estado Novo, Lobato continuou a fazer críticas à política governamental. Em maio de 1940, quando a França estava sendo conquistada pela Alemanha nazista, escreveu longa carta a Getúlio Vargas. Atacou o CNP e pediu a Vargas que “pelo amor de Deus ponha de lado a sua displicência e ouça a voz de Jeremias”, pois “se vai generalizando a opinião de que a política oficial obedece, mais do que nunca, aos interesses do imperialismo da Standard Oil”. Segundo Lobato, para o CNP “as palavras “pátria’ e “nacionalismo’ dançam um fox-trot no palco dos “considerados’ justificatórios -mas no fim da dança só saem ganhando as companhias estrangeiras que nos vendem petróleo”.
Meses depois o governo deteve Lobato e o condenou a seis meses de prisão. Foi indultado, mas mesmo na prisão não perdeu a oportunidade de escrever uma carta ao general Horta Barbosa, seu velho inimigo: “Passei nesta prisão, general, dias inolvidáveis, dos quais sempre me lembrarei com a maior saudade. Tive ensejo de observar que a maioria dos detentos é gente de alma muito mais limpa e nobre do que muita gente de alto bordo que anda solta”.
Em todos os empreendimentos faltou a Lobato paciência e uma visão utilitária e de longo prazo, típica do capitalismo americano, que ele tanto admirou, quer como fazendeiro, dono de editora e representante comercial do governo brasileiro, quer como propagandista-empresário do petróleo. Lembra Galeão Coutinho que Lobato foi o primeiro escritor brasileiro que não sentiu vergonha de ser um homem de negócios, afastando-se do padrão do intelectual que vive à sombra do Estado. Pouco antes de morrer, escreveu que tinha passado a “vida querendo fazer dinheiro com a indústria para escrever por distração. Acabei ganhando dinheiro com a literatura para perdê-lo na indústria”.


Marco Antonio Villa é historiador e autor de “A Queda do Império”, “O Nascimento da República” e “Canudos – O Povo da Terra” (Ática) e “Collor Presidente:Trinta Meses de Turbulências, Reformas, Intrigas e Corrupção.” Editora: Record

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